Teresa Milheiro

Teresa Milheiro
 

Perante uma lenda viva, não há muito mais a fazer senão escutar as suas histórias e aprender qualquer coisa. Teresa Milheiro não é só joalheira desde que há memória, mas também um ícone do panorama artístico contemporâneo lisboeta e um exemplar de originalidade e de resiliência criativa. Na sua voz escondem-se anos de experiências enriquecedoras e as mãos abrem-se ao desconhecido como se mais nada importasse. 

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When standing before a living legend, there’s not much more to do than listen to her stores and learn something. Teresa Milheiro is not only a jewellery designer since forever, but also an icon of Lisbon’s contemporary art scene and an example of originality and creative resilience. Her voice hides years of enriching experiences and her hands open up to the unknown as if nothing else mattered.

 

 
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Instalado na Praça de Luís de Camões, de braço dado com o seu inolvidável Bairro Alto, o atelier de Teresa Milheiro ostenta o caos maravilhoso de que todos temos inveja. Nota-se à entrada que ali se descobrem muitas coisas, se desdobram outros mundos, se revelam muitas narrativas de uma vida repleta de grandiosidades memoráveis. Os objectos de mil e uma origens perdem-se em gavetas de vários tamanhos, mostruários, malas antigas, estantes. Aqui é possível navegar num universo que mistura harmoniosamente as peças que tem vindo a desenvolver ao longo de uma carreira de 35 anos na joalharia e itens de todo o género, maioritariamente antigos, que colecciona, recolhe e recebe de amigos que a conhecem bem e sabem o que a entusiasma.

«Considero que o meu trabalho faz intrinsicamente parte de mim. A minha vida e as experiências pelas quais passei influenciam em muito as minhas peças», conta Teresa, que desde sempre soube que caminho profissional seguir. «Sou uma privilegiada», confessa, «pois descobri muito cedo o que gostava de fazer». 

Em 1984, entrou na Escola Artística António Arroio, em Lisboa, em Artes do Fogo, e é aí que dá de caras com a sua vocação, embora não tivesse sido lá que começasse verdadeiramente a desenvolver joalharia. «Na António Arroio descobri amigos que ficaram para o resto da minha vida. Estamos a falar de 10 anos depois do 25 de Abril, o movimento punk tinha começado há pouco tempo em Portugal e eu aderi logo, também por partilhar das ideologias políticas da altura», diz. 

Located in Praça Luís de Camões, arm in arm with her unforgettable Bairro Alto, Teresa Milheiro’s studio displays the kind of amazing chaos we will wished we had. It is clear, as soon as you walk in, that there’s a lot to discover, many worlds that unfold, many narratives of a life filled with memorable splendours. The objects of countless origins are deposited in drawers of many sizes, showcases, old suitcases, shelves. Here it is possible to sail in a universe that smoothly balances the pieces she’s been making throughout a 35-year jewellery career and items of every kind, mostly vintage, she’s been collecting, compiling and getting from friends who know her well and what gets her going. 

«I believe my work is intrinsically part of me. My life and my experiences have a major influence on what I do», Teresa says, who knew all along what she wanted to do professionally. «I’m very lucky», she confesses, «because I found out pretty early what I loved to do».

In 1984, she got in the António Arroio Arts School, in Lisbon, where she studied Arts of Fire, where she meets her calling, although she didn’t exactly start making jewellery there. «At António Arroio I met friends for life. We’re talking 10 years after the Revolution, and the punk movement had come to Portugal not so long ago, and I joined immediately, as I also shared some of its political ideologies back then», she tells us.

 
 
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Depois disso, entrou no Ar.Co, onde esteve quatro anos, e aí pôde continuar a trabalhar na sua paixão à primeira vista. Daqui surgiram as jóias de auto-defesa, que tinham a ver com o meio onde Teresa se deslocava com mais frequência, o Bairro Alto e os seus dissabores para os jovens noctívagos, essencialmente mulheres. «Na altura, não era muito bem-afamado. Aconteciam muitas situações de violência. Não sei como é hoje em dia, mas era normalíssimo as miúdas serem apalpadas na rua». Depois de alguns episódios menos agradáveis, Teresa desenvolveu a tal colecção de jóias, em meados dos anos 80, uma série de mãos articuladas e braceletes com pontas aguçadas. «No meu trabalho, sempre usei muito articulações e movimento. Chateava-me as peças muito estáticas, prefiro que possam mudar a posição e ter várias leituras. Sempre me interessei muito por Anatomia também, tanto que, sempre que viajava, visitava museus ligados a Anatomia, Medicina, Veterinária, e tudo isto me influenciou muito. Comecei também a trabalhar com ossos, utilizava-os como molde para fazer fundições, até que houve um dia que comecei mesmo a fazer peças com ossos, com dentes».

No início dos anos 90, viveu em Berlim durante dois anos e continuou a trabalhar também em joalharia. Quando regressou, juntou-se a um grupo de 14 amigos e, juntos, fundaram a Galeria Zé dos Bois, em 1994, porque não estavam satisfeitos «com o panorama artístico em Portugal em termos de galerias» e assim podiam expor os seus trabalhos. Seguiram-se cerca de dez anos a trabalhar para uma empresa que operava com património arqueológico ligado ao metal e desenvolveu colecções de joalharia para instituições e museus. Paralelamente a isto, continuou sempre a trabalhar nas suas próprias peças, sempre com um carácter disruptivo e de crítica social, cultural, económica, política e ambiental. Em 2007, abriu a galeria ARTICULA, em Alfama, que acabou por encerrar em 2012 por não querer enveredar por um caminho mais comercial para a manter à superfície. A coerência das coisas que faz desde o início da carreira é visível nestes gestos que transmite também para as jóias que cria. A reutilização também tem um peso forte no seu trabalho, já que «desde miúda que gosto de pegar em objectos existentes e transformá-los noutras peças. Não consigo olhar para as coisas como descartáveis. Todas elas têm uma história e é óptimo poder aproveitá-las e dar-lhes uma nova».

Algumas das suas peças mais relevantes e notáveis ao longo dos seus 35 anos de revolução artística são, por exemplo, “Passagem para um outro lado”, um conjunto de treze marionetas baseadas na ‘Trilogia das Barcas’ de Gil Vicente, ou “Be Botox be fuckin’ beautiful”, uma crítica dedicada às pessoas que vivem obcecadas pela imagem, em prata oxidada, uma seringa de vidro reutilizada e madeira, entre muitas outras. O seu atelier, aliás, é como um retrato museológico de todas as suas criações, ainda que incompleto, pois três décadas não cabem em meia dúzia de metros quadrados, e a joalharia contemporânea, que tanto defende como veículo de expressão e de comunicação, é um volta-face constante de sofrimento, dor, tortura, beleza, imperfeição, morte e sobrevivência. 

After that, she enrolled in Ar.Co, where she studied for four years, and there she was able to work on her passion at first sight. This is when the self-defence pieces come out, which had to do with the environment where Teresa went more often, Bairro Alto and its mishaps for young night-crawlers, essentially for women. «Back then, it had an awful reputation. There was a lot of violence happening. I don’t know what happens nowadays, but girls being groped on the street used to be something completely normal». After a few unpleasant episodes, Teresa worked on that collection, in mid-80s, a series of articulated hands and sharp-pointed bracelets. «In my work, I’ve always used articulations and movement. Static pieces bored me; I prefer to have them change positions and have more than just one interpretation. I’ve always been interested in Anatomy, as well, so much that every time I’d travelled, I’d visit museums of Anatomy, Medicine, Veterinary, and everything had a huge influence on me. I also started working with bones, I used them as casting moulds, until there was a day when I started using bones and teeth to make the pieces themselves».

In the early 90s, she lived in Berlin for two years and kept working in jewellery. When she got back, she joined a group of 14 friends and together they founded Zé dos Bois in 1994 — a legendary cultural space that still exists today — because they weren’t happy with «Portugal’s art scene in terms of galleries» and this way they’d be able to show their work. After that, she worked for a company operating within archaeological heritage connected to metals and developed jewellery collections for museums and institutions. At the same time, she kept making her own pieces, always with a disruptive trait and social, cultural, economic, political and environmental criticism. In 2007, she opened a gallery in Alfama called ARTICULA, which she ended up closing in 2012 because she wasn’t comfortable with following a more commercial path to keep it afloat. The coherence present in all the things she does since the beginning of her career is noticeable in these actions she conveys onto her jewellery, too. Reusing materials also weighs in a lot on her work, since she likes «to take existing objects and turning them into other things» since she was a little girl. «I can’t look at things as disposable. Everything has a story and it’s great to be able to draw on it and give them a new one».

Some of her most relevant and notable pieces created throughout her 35 years of art revolution are, for instance, “Passage to the other side”, a set of 13 puppets based on Gil Vicente’s allegoric plays, or “Be Botox be fuckin’ beautiful”, a critique dedicated to people who are obsessed with their image, made with oxidised silver, a reused syringe and wood, among many others. Her studio, in fact, is like a museological portrait of all her creations, though incomplete, as three decades don’t fit in half a dozen square metres, and contemporary jewellery, which she upholds as a means of expression and communication, is a constant volte-face of suffering, pain, torture, beauty, imperfection, death, and survival.

 
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Considero que o meu trabalho faz intrinsicamente parte de mim. A minha vida e as experiências pelas quais passei influenciam em muito as minhas peças.

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I believe my work is intrinsically part of me. My life and my experiences have a major influence on what I do. 

 
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