Sedimento

Sedimento
 

A alguns passos do Jardim da Estrela, de portas escancaradas para o mundo, há um espaço que tem vindo a ganhar os corações dos amantes de cerâmica, sejam aficionados ou amadores. Aqui, o amor mede-se por tempos de cozedura, experiências, tentativa e erro, mas também vitórias à primeira. É no Sedimento que tudo isto acontece e muito mais, e depois de entrarmos, não queremos mais sair.

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A couple of steps away from Jardim da Estrela, with their doors wide open to the world, there’s a place that has been winning over the hearts of ceramics lovers, both aficionados and amateurs. Here, love is measured through cooking time, experiences, trial and error, but also wins on the first try. It’s at Sedimento where all of this happens and lots more, and once you get in, there’s no way you’ll be wanting to leave.

 

 
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Maud Téphany e Úrsula Duarte são os dois rostos empolgados por detrás deste género de cowork de cerâmica, onde se juntam residentes temporários e alunos dos cursos de cerâmica que disponibilizam no atelier. Aberto no Verão de 2017 num open space que só visto, o Sedimento desfruta da calma de um bairro mais desconhecido das massas, para além de ter, de facto, uma área que as deslumbrou desde o primeiro momento. «Estávamos um pouco apertadas no outro atelier onde estávamos, então, quando vimos este espaço, achámos que era mesmo isto», acrescenta Úrsula.

Os primeiros passos no interior do Sedimento deixam-nos um pouco boquiabertas. O fascínio por ateliers e espaços de trabalho de qualquer natureza ultrapassa quaisquer barreiras e coloca-nos um sorriso no rosto ao primeiro vislumbre das mil e umas peças em construção, da fila para o forno, dos objectos — com e sem funções aparentes — expostos, alguns das próprias proprietárias, outros de residentes ou de alunos.

O dia-a-dia no Sedimento é tão diverso como seria de esperar. «No início, foi complicado», conta-nos Maud. «Primeiro, foi arrancar com o atelier. Agora temos mais tempo para nós e para as encomendas que recebemos. Trabalhamos essencialmente para restaurantes, hotéis, decoração e fine dining — pequenas quantidades, quase pratos-escultura». A prioridade do estúdio é, claramente, esta mesmo. Investem, claro está, o tempo necessário nas aulas e na supervisão aos residentes, mas os dias mais calmos e organizados são dedicados às suas coisas.

Maud Téphany and Úrsula Duarte are the two eager faces behind this ceramics cowork of sorts, where temporary residents and ceramic students are brought together in the studio. Open since the summer of 2017 on a to-die-for open space, Sedimento enjoys the tranquillity of the yet-to-be discovered neighbourhood, in addition to exhibiting an area that dazzled them from the first moment they saw it. «We were a bit cramped at the other studio we used to work at, so when we saw this space, we knew it was it», says Úrsula.

The first steps inside Sedimento leave us completely speechless. The fascination for studios and work spaces of any nature goes over any barriers and put us a smile on our faces as soon on the first glimpse of the countless pieces being created, waiting to go in the oven, the displayed objects — with or without apparent function —, some of which belong to the owners, others from residents and students.

The daily life at Sedimento is as diverse as you would think. «In the beginning, it was hard», Maud tells us. «First, we had to get the studio up and running. Now we’ve got more time for us and the orders we get. We work essentially for restaurants, hotels, decorations and fine dining — small quantities, almost sculpture-plates». The studio’s priority is clearly this. They invest, of course, the necessary time on the workshops and supervise the residents, but on calmer, more organised days, they get to dedicate themselves to their own projects.

 
 
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«Nunca há um dia igual, como qualquer trabalho. Às vezes corre tudo bem, outras vezes não. Gosto de dar workshops; gosto de receber os residentes à quarta-feira também, pois são pessoas que também têm noção de arte, mas não propriamente ligada à cerâmica», conta-nos Maud. Os residentes são, usualmente, peritos em levar-lhes desafios alucinantes, como copos em forma de cactos — um barman que precisava de umas peças assim para um concurso — ou bolas de futebol realistas para a exposição de um artista. A imaginação é mesmo o limite, e isto é o que as permite manter-se motivadas e aliciadas, os projectos exigentes que parecem não ter uma solução à vista, mas que acabam por sair cá para fora.

Como qualquer ceramista, cada uma tem o seu estilo e a sua maneira de encarar a forma e o propósito das suas peças. Úrsula, por um lado, gosta de fazer coisas utilitárias. «Fico nervosa com peças que são somente decorativas e que não servem para mais nada. Podem ser de decoração, mas têm de fazer outra coisa, de ter uma função. E, se não tiverem, vou tentar arranjar», confessa. As peças que cria seguem uma linha mais geométrica, em grés ou porcelana. «Estas», diz, apontando para os objectos em tons pastel na parede à entrada do atelier, «começaram por ser uma coisa, depois transformou-se noutra e, depois, já não era suficiente ser uma prateleira, tinha de ser uma jarra».

Maud já segue um caminho completamente distinto, que prefere as peças de formas mais orgânicas e livres, mas sem lhes dar propriamente uma função. «Só se tiver uma função não aparente. Estou mais virada para a escultura, a ausência de forma específica. Estes candeeiros», refere, também apontando para duas estatuetas quase voláteis, «têm uma função, acrescentei uma lâmpada, mas não pensei fazer logo isto, não começou assim. Também as jarras não são bem jarras, porque têm essa forma, mas não podes pôr água. Uma cliente comprou essa jarra e perguntou se poderia pôr água, ao que eu respondi que não, pois não estava vidrado. Mas também não vale a pena pôr flores, pois não é o objectivo ela ser para isso. Gosto mais sem flores. Ela acabou por achar bem e levou-a na mesma».

 

«É o objecto pelo objecto. É mais uma forma do que um objecto, até», acrescenta. Olhando à volta, percebe-se bem que o espaço respira luz e beleza na sua mais pura essência, aquela embutida num fragmento de cerâmica que foi criado por duas mãos e que, por vezes, não corre tão bem como o esperado. «Eu gosto do acidente. Abre portas para outras coisas», diz Maud. São os erros que nos fazem tentar uma e outra vez até que o resultado se assemelhe ao que havíamos imaginado — e nem assim poderemos apressar o processo. Este é um ofício que faz esperar. E ainda bem.

«There’s never a day like the other, as it happens with every job. Sometimes everything goes smoothly, other times not so much. I enjoy teaching workshops; I like to welcome the residents on Wednesdays, too, because they’re people who have basic notions of art, but not connected to ceramics», Maud tells us. Residents are usually experts in bringing in mind-boggling challenges, such as cacti-shaped cocktail glasses — requested by a bartender who needed them for a contest — or realistic footballs for an artist’s exhibition. Imagination is certainly the limit, and this is what allows them to keep motivated and driven, the demanding projects that seem not to have a clear solution but end up getting done.

As any ceramist, each one has their own style and way to deal with shape and the purpose of their pieces. Úrsula, on one hand, loves to make useful things. «I always get nervous with pieces that are merely decorative and can’t be used for anything else. Sure, they can be decorative, but need to be able to do something else, having a function. And, if they don’t, I’ll try to find one», she confesses. The pieces she creates follow a geometric line of work, in stoneware or porcelain. «These», she says pointing to the pastel-toned objects on the wall at the entrance of the studio, «started by being one thing, then it became another, and after that it wasn’t enough that it was a shelf, it had to be a vase as well».

Maud follows a completely different path, which makes her prefer more organic and free outlines, but without giving them a function exactly. «Only if the function is not obvious. I’m more inclined to sculpture, the absence of a specific shape. These lamps», she says, also pointing to the two seemingly volatile statuettes, «have a function, as I added a bulb, but this wasn’t what I intended in the beginning. The vases are not exactly vases, too, because they hold that shape, but you can’t put water on them. A customer bought one of those vases and asked if she could put water, to which I replied she couldn’t, because it wasn’t glazed. But I think it doesn’t need any flowers, because that’s not its goal. I like it more without flowers. She ended up agreeing and took it anyway».

«It’s the object for the object. It’s actually more of a shape than an object», she adds. Looking around, one can see that the space breathes light and beauty in its purest essence, the one embedded on a fragment of ceramics that was created by two hands and that, sometimes, it doesn’t go as it should. «I enjoy the accident. It opens doors for other things», Maud says. It’s the mistakes that makes us try again and again until the result comes closer to what we would’ve wanted — and even so we’re not allowed to rush the process. This is a craft that makes you wait. And that’s good.

 
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Eu gosto do acidente. Abre portas para outras coisas.

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I enjoy the accident. It opens doors for other things.

 

 

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