Peixaria Centenária

Peixaria Centenária
 

Quando falamos de um projecto ou sonho orgânico à séria, daqueles que se alimentam das boas ideias, das boas pessoas e dos bons propósitos, salta à vista, de imediato, a Peixaria Centenária. A servir os fregueses do bairro da Praça das Flores e arredores — há quem venha de longe para se deleitar com este peixe de qualidade — desde Novembro de 2013, esta peixaria tem muito de tradicional, mas vive com os pés bem assentes na terra dos dias de hoje.

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When we talk about a truly organic project or dream, of those that feed off good ideas, people, and goals, there is one that comes to mind almost immediately: Peixaria Centenária. Serving customers from the Praça das Flores neighbourhood and its outskirts — there are people coming from quite far to delve in high-class fish — since November 2013, this fish shop owns a very traditional flare, but lives with its feet on a very current ground.

 

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A fervilhar há um par de anos, a ideia para a Peixaria Centenária ganhou vida com Rui Quinta, designer, Joana Mateus, ilustradora, Filipe Alves, artista plástico, e, mais tarde, Tânia Silva, peixeira. Os primeiros três pouco sabiam de peixe no início ou como se mantinha um negócio do género, a não ser o que lhes foi sendo passado ao longo dos anos pelas famílias, já que muitos dos elementos trabalhavam — e trabalham ainda — com essas magníficas criaturas. 

Depois de uma temporada em Berlim a estudar Design Thinking, Rui regressou com a missão de colocar em prática o que aprendera, e assim o fez com o negócio do pai de venda grossista de peixe no MARL – Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, «que não estava em muito bom estado do ponto de vista do negócio, e decidiu então dedicar três meses a entender e a tentar ajudar o negócio do pai», conta Joana. Depois disso, entrevistou pessoas e passou uma semana a comer peixe, tentando colocar-se também na pele do consumidor, fazendo perguntas aos que não consumiam também para entender a sua relação com peixe — um produto tão nosso, mas que, numa cidade frenética como Lisboa, viu o seu valor descaracterizar-se e sair de moda.

«Nós os três temos história familiar de peixeiros. A minha mãe é peixeira e a minha avó também. Na família do Rui, há muita gente ligada ao peixe, o pai tem o tal negócio grossista, a mãe tem uma peixaria na Amadora, a irmã gere a empresa grossista do pai, e o próprio avô ainda hoje é a pessoa que está na lota em Peniche a escolher o nosso peixe. No início falávamos muito da nossa história também por uma questão de validação, por sermos jovens, por parecer que não temos nada que ver com isto. Mas é por isso que a peixaria se chama Peixaria Centenária: temos uma colecção centenária de pessoas ligadas a isto. Realmente é algo que vale a pena voltar a trazer».

Simmering for a couple of years, the idea for Peixaria Centenária was brought to life by Rui Quinta, designer, Joana Mateus, illustrator, Filipe Alves, visual artist, and, later on, Tânia Silva, fish seller. The first three knew next to nothing about fish in the beginning or how you kept a fish-oriented business, unless what their families have taught them about it, as many of their family members worked — and still do — with those magnificent creatures.

After spending quite some time in Berlin studying Design Thinking, Rui returned with the mission of putting what he’d learned into place, and he did it with his father’s wholesale fish business in MARL, the wholesalers market for the Lisbon region, «which was not great from a business standpoint, so he decided to devote three months understanding and trying to help his father’s business», says Joana. After that, he interviewed people and spent a week eating just fish, trying to put himself in the shoes of the consumer, as well as asking questions to those who didn’t eat fish to try and apprehend their relationship with fish — a product that’s intrinsically Portuguese, but in a frenetic city like Lisbon became almost forgotten and out of fashion.

«The three of us have a fish-based family history. My mother’s a fish seller and my grandma, too. In Rui’s family, there’s a lot of people living off fish, his father owns that wholesale business, his mother has a fish shop in Amadora, his sister manages their father’s business, and even his grandpa goes to the first-sale fish site in Peniche to pick out the fish that comes here. In the beginning, we talked a lot about our history for the sake of validation, because we’re young and it seems like this has nothing to do with us. But that is why this is called Peixaria Centenária: we’ve got a centennial collection of people connected to this. It really is something that is worth bringing back to life».

 
 
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Há uma tentativa de a Peixaria ter a voz de uma peixeira, uma forma de tratar provocadora, como uma mãe ou uma avó diria, e ninguém se incomoda muito com isso.

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There’s an attempt to have Peixaria own a typical fish-seller’s voice, a rabble-rousing way of being, like a mom or a grandma would, and no one’s really bothered by it.

 
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Passado o tempo de arranque no número 55 da Praça das Flores, um belíssimo bairro de qualidades variadas, muito querido para quem lá vive e para quem faz questão de visitar, a Peixaria Centenária tornou-se um ex-líbris do que significa ter um negócio à moda antiga na era moderna, recorrendo à venda de um produto simples e essencial — o peixe e seus derivados — e os seus complementos, como saladas, molhos e temperos e mercearia no geral, sem esquecer os produtos revolucionários no ramo que foram aparecendo ao longo do tempo, como as masterclasses (nas quais ensinam como tratar do peixe) ou as ‘Sardinhadas na Firma’ (levam o grelhador e as sardinhas para a sua empresa e fazem a festa nos santos populares).

Retomando o conceito do que é ser orgânico em tempos de velocidades vertiginosas e o que significa deixarmo-nos levar pelo que o próprio negócio e os clientes pedem ou sugerem, assim é o dia-a-dia da Peixaria Centenária, cujo alter ego digital ganhou uma voz muito característica e muito dona do seu nariz. «Há uma tentativa de a Peixaria ter a voz de uma peixeira, uma forma de tratar provocadora, como uma mãe ou uma avó diria, e ninguém se incomoda muito com isso. Houve um trabalho de tentar identificar o branding da marca, o ADN dela, com ganas, sem merdas, directa, preocupada, mas também é peixeira num sentido de ser esperta. Esta identidade foi, para mim, muito carregada em cima de uma forma de falar que eu conheço da minha mãe, por exemplo — apesar de ela não ser o estereótipo da peixeira do Bolhão, até porque faz venda ambulante e é uma coisa diferente».

Esta é a peixeira que provoca e impele, mas não ofende, é a extensão de todas as raízes familiares destes quatro sócios, mas elevado a um ponto jocoso sem ferir susceptibilidades. Esta é a obra de Joana Mateus que, mesmo não sendo copywriter ou nunca ter comunicado nas redes sociais, como a própria afirma, se deixou levar por aquilo que fazia sentido explorar como persona e tom de voz desta senhora que vende o seu peixe e quer ver a clientela feliz e satisfeita.

E para quem tem a sorte de conseguir reservar um lugar a tempo, a Peixaria Centenária passou a organizar jantares também. Como e onde, perguntam? Isso mesmo: na banca, graças ao chef e amigo Pedro Marques. «Chama-se ‘A Banca na Peixaria’, ou seja, a banca da loja transforma-se literalmente numa mesa, apagamos as luzes, ficam só velas, e o que servimos é peixe que salta da banca para o prato. São jantares à porta fechada com limite para dez pessoas. Quando são menos de dez, o chef senta-se à mesa, o que é muito interessante. Ele tem imensa conversa, o que é bom, e as pessoas têm imenso gosto e bom feedback do jantar».

After the launch period at number 55 of Praça das Flores, a beautiful neighbourhood of various qualities, very close and dear to those who live there, as well as those who make sure of going there all the time, Peixaria Centenária has become a symbol for what it means to own an old-fashioned business in the modern era, resorting to no less than a simple, essential product — fish and its by-products — and also its complements, such as salads, sauces and seasonings, and grocery products in general, not forgetting ground-breaking products in its line of business that came along over the years, such as masterclasses (where they teach you how to basically take care of fish) or ‘Sardinhadas na Firma’ (they take the grill and the sardines to your place of business during the ‘popular saints’ month in Lisbon).

Going back to the concept of what it means to be organic in times of breakneck speeds, and what it also means to let yourself go with the flow of the business itself and what the customers ask for or suggest, this is the day-to-day life at Peixaria Centenária, which virtual alter ego gained a very distinctive, self-assured voice. «There’s an attempt to have Peixaria own a typical fish-seller’s voice, a rabble-rousing way of being, like a mom or a grandma would, and no one’s really bothered by it. There was a process of trying to identify the branding, the DNA, which is driven, no bullshit, straightforward, concerned, but also street smart. This identity was, to me, carried by a way of speaking and being I’ve known from my mom, for instance — although she’s not the stereotype of a Bolhão fish seller [a well-known open-air market in Porto with flamboyant fish sellers], as she sells fish in a truck around town, which is very different».

This is the archetypal fish seller who provokes and spurs without offending, the add-on to all the family roots embedded in these four partners yet elevated to a tongue-in-cheek level without hurting any feelings. This is the work of Joana, who, even though she’s not a copywriter and has never worked on social media, as she says, has let herself go with what made sense to explore as a persona and tone of voice of this lady that sells her fish and wants her customers to be happy and pleased.

And for those who are lucky enough to guarantee a spot in time, Peixaria Centenária is also organising dinners. How and where, you ask? Exactly: the fish stand, thanks to Pedro Marques, their friend and a chef as well. «It’s called ‘A Banca na Peixaria’, that is, the stand literally turns into a table, we switch off the lights, there are only candles, and what we serve is fresh fish, stand-to-plate. They’re private dinners with a limited number of ten people. When it’s less than that, the chef comes and sits at the table, which is amazing. He talks a lot, which is great, and people love it and give great feedback». 

 
 
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