Margarida Fleming

Margarida Fleming
 

Numa rua luminosa de Lisboa, fomos ao encontro do estúdio de Margarida Fleming, que também é a sua casa — traça tradicional, soalho de madeira, um gato que não se importou com a nossa presença. No seu reino, onde só cabe a mais pura das artes, são os olhos que saltam à vista, uma característica que a própria detém. 

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In a bright street in Lisbon, we found Margarida Fleming’s studio, which is also her home — traditional Portuguese style, wooden floors, a cat that doesn’t mind our presence. In her realm, where only the purest of arts can fit, it’s the eyes that stand out, something that’s part of her, too.

 

 
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Margarida nasceu e cresceu em São Pedro do Sul «rodeada de amigos e natureza», como a própria declara, e foi também lá que começou a dar os primeiros passos na pintura, bem antes de se formar em Arquitectura e Design Gráfico. «Desde pequena que tenho aptidão para as artes e a constante experimentação de técnicas esteve sempre presente. A minha experiência com a pintura começou, sem dúvida, através da observação, leitura de livros sobre artistas, experimentar técnicas diferentes sem pensar num caminho em específico. Experimentar sem medo».

A intuição é a sua maior aliada nestas andanças e os olhos o ponto fulcral das suas peças. É pouco provável que os olhos passem despercebidos a quem se depara com os seus retratos enigmáticos e belos, de traços «rápidos, fortes e intuitivos», resultado da liberdade com que pinta e «a falta de medo de errar». Os olhos são, portanto, o foco, o corpo transmissor de emoções que nos conduz para um outro estado de espírito que não aquele que é visível à primeira. Há, claramente, uma camada subterrânea que nos arrasta para um mundo muito próprio desta autora. «Os olhos são super-realistas. Têm um olhar transparente e intrigante, como se tivessem a alma descoberta», assegura. Nas suas pinturas, que podem ser expostas numa galeria ou registadas numa parede de grandes dimensões, Margarida expõe essa liberdade no olhar de forma única, de olhos profundos rodeados de pinceladas épicas e delicadas ao mesmo tempo. O processo criativo parte da observação de alguém, uma «personagem real» que se transforma numa outra personagem. «Assim como todo o processo é intuitivo, as escolhas das cores também são, aparecendo, por vezes, cores inesperadas, principalmente nos contornos das caras». É, realmente, um processo livre que nos releva para outros patamares do possível e do impossível, um realismo de mãos dadas com surrealismo, de traço firme alavancado ao detalhe que tem mesmo de estar lá, mesmo que roçando uma imperfeição desejada. 

Margarida was born and raised in São Pedro do Sul «surrounded by friends and nature», she tells us, and that’s where she gave her first steps in painting, even before she studied Architecture and Graphic Design. «I’ve had a knack for the arts since I was little, and the constant experimentation of techniques has always been there. My experience with paint definitely started through observation, reading books about artists, trying with different techniques without a specific outcome in mind. Experimenting without fear».

Intuition is her greatest ally on these wanderings, and the eyes the crucial point of her pieces. It’s quite unlikely that the eyes go unnoticed to those who come across her enigmatic, beautiful portraits, of «quick, firm, and intuitive» strokes, a result of the freedom which she paints with and the «willingness to make a mistake». The eyes are, therefore, the focus, the body-pack transmitter of emotions that guides us through a whole other spirit of mind that isn’t what we see right way. There is clearly an underground pulling us to her own world. «The eyes are hyper-realistic. They’ve got a transparent, intriguing look, like they were baring their soul», she states. In her paintings, which can be displayed at a gallery or delivered on a giant wall, Margarida exposes that freedom in the eyes in a unique way, of profound eyes surrounded by epic yet delicate strokes at the same time. The creative process begins with observing someone, a «real character» that transforms into another character. «Just like the entire process is intuitive, the choice in colors are as well, making way for unexpected colors sometimes, mainly on the contours of the faces». It is indeed a free process that takes us into other levels of possible and impossible, a realism that goes hand-in-hand with surrealism, the firm stroke leaning upon the kind of detail that really needs to be there, even if bordering a desired imperfection.

 
 
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No repertório, conta já com algumas exposições nacionais e internacionais — Macau e San Diego, por exemplo — e uma ou outra parede na rua que desperta incondicionalmente a atenção de quem passa. As figuras, maioritariamente femininas, olham-nos de frente, elegantes, conscientes da mágoa e da graciosidade visível nos seus rostos e gestos e cores. Numa parede, estes traços alcançam uma dimensão que não se compara a mais nenhuma, mas é na tela que as minúcias de cada pincelada se revelam e exprimem. Não são precisas palavras ou descrições do que vemos, já que cada feição fala por si, cada contorno, cada linha que desenha uma vida a acrílico.

Com uma parede em Dublin a ser preparada e uma exposição no Príncipe Real também para breve, Margarida Fleming promete mais rostos e mais emoções, e também «expor mais no estrangeiro e explorar mais a área da tecnologia na arte». Aguardemos, então, ansiosos e ainda absortos nestes olhos sem igual, os próximos passos desta «miúda viciada em arte» e «provocadora de si própria no mundo criativo».  

In her repertoire, she has already amassed to a handful of exhibitions in Portuguese territory and abroad — Macao and San Diego, for example — and a couple of walls, which unconditionally cause a stir from everyone passing by them. The mostly female figures are looking directly at us, elegant, fully aware of their pain and gracefulness that is visibly on their faces and gestures and colors. On a wall, these traits reach a whole new dimension that really can’t compare to anything else, but the canvas it’s where the minutiae of every stroke are revealed and expressed the most. There is no need for words or descriptions of what we’re seeing, as each feature speaks for itself, each outline, each line drawing a life in acrylic. 

With a wall in Dublin being already prepared and an exhibition in Príncipe Real, Lisbon, happening soon, Margarida Fleming promises more faces and more emotions, and also «to showcase more of my work abroad and explore the field of technology in art». Let’s wait, then, eager and still in awe of these unparalleled eyes, for the next steps of this «art-addicted gal» who’s «her own agent provocateur in the creative world».

 
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«Os olhos são super-realistas. Têm um olhar transparente e intrigante, como se tivessem a alma descoberta»

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The eyes are hyper-realistic. They’ve got a transparent, intriguing look, like they were baring their soul.

 

 

 
 

JOURNAL PROUST

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Margarida Fleming

 
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