Another Angelo

Another Angelo
 

Se cada ideia que nos cruza o pensamento fosse grafada de forma quase-eterna na folha de papel em branco como registo assente para mais tarde recordar, talvez não nos sobrasse tempo para mais nada. Mas o Another Angelo conseguiu transformar este dom no seu trabalho quotidiano através da ilustração de mensagens que nos fazem olhar duas vezes e pensar mais três. 

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If every idea crossing our minds right now were to be wrote down in a nearly everlasting way on a blank piece of paper as an established inscription to remember some years later, we’d probably not have time to do anything else. But Another Angelo found a way to transform this gift into his daily job by drawing messages that make us look twice and think three times more.

 

 
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Nascido no Algarve e criado em Genebra, Ângelo instalou-se em Lisboa há uma mão-cheia de anos para fazer aquilo de que realmente gostava — um caminho que muitos sonhadores esperam percorrer e que é sempre tão difícil de concretizar — e por amor, também. Começou por explorar as hipóteses em termos de educação dentro da área da ilustração, tendo começado, primeiro, por fazer um curso de Iniciação à Ilustração na Nextart e, depois de pensar em alternativas para complementar este curso, optou por ingressar na ETIC. «Na altura, conheci pessoas que me ajudaram a perceber o que deveria fazer para singrar nessa área, especificamente o ilustrador José Feitor, que foi meu professor e que me deu as bases do que seria preciso fazer para ser bem-sucedido», conta.

Antes de chegar a Lisboa, quando voltou para Portugal, Ângelo fez «muitas coisas», como o próprio admite. «Tentei a minha sorte em várias áreas, mas acabei por ajudar o meu irmão durante um ano na sua oficina. Aí acabei também por iniciar um projecto de restauro e de construção de bicicletas com um amigo meu. Depois disso, abri um negócio que envolvia um salão de chá & bar e um atelier com roupa em 2.ª mão. No Algarve, contudo, os negócios funcionam melhor no Verão e, por isso, acabei por ter de deixá-lo após três anos. Aprendi muito; nunca tinha tido aquela noção de responsabilidade. Mas também nunca deixei de fazer os meus desenhos e outros projectos mais criativos que me mantinham motivado».

Depois de aterrar aqui, Ângelo fez de tudo para se sentir integrado, algo que veio muito das pessoas que foi conhecendo ao longo do tempo, tanto nas aulas como fora delas. Terminado o curso na ETIC, decidiu pôr uma pausa nos estudos e concentrar-se na ilustração. «No início, e acho que ainda tenho muito essa ideia, não me preocupava se as pessoas iriam gostar ou não, até porque o que me interessava era que eu gostasse do que estava a fazer. Se, hoje em dia, as pessoas não gostarem, mas eu gostar, ao menos sou original, sou autêntico. Primeiro preocupo-me em fazer algo de que gosto mesmo, porque sei o que funciona no meio digital e o que traz números, mas não quero ir só por aí, porque vou deixar de ser eu».

Born in Algarve and raised in Genebra, Ângelo came to Lisbon a handful of years ago to do what he really wanted to do — a path many dreamers hope to go through that’s always so hard to achieve — and for love, too. He started by exploring his chances of studying illustration, and he first went to do a course at Nextart and later, after thinking of what alternatives he had that would counterpart his studies so far, he got in ETIC. «Back then, I met people who helped me figuring out what I should do to make it on this field, particularly illustrator José Feitor, who was my teacher and showed me what I needed to do to be successful», he says.

Before coming to Lisbon, though, and when he got back to Portugal, Ângelo did «a lot of things», as he says. «I tried my luck in many things but ended up helping my brother for a year working on his repair shop. While I was helping him, me and a friend started a bicycle repair project there. After that, I open a business that involved a tea room & bar and a second-hand place. In Algarve, however, businesses succeed mostly during summer, so I ended up giving it up after three years. I learned a lot; I’d never had that concept of responsibility. But I also never stop drawing and working on other more creative projects that would keep me motivated».

After landing here, Ângelo did everything he could to feel included, something that came from many people he got to meet over time, both in school and outside of it. After he finished his course at ETIC, he decided to put a break on studying and focus on illustration. «In the beginning, and I think I still feel that way, I wasn’t concerned if people would like my stuff or not, even so because I was interested in doing what I enjoyed the most. If, nowadays, people don’t like what I do, but I’m happy with it, at least I’m original, I’m authentic. First, I worry about doing something I really love, because I know what works online and what brings the big numbers, but I don’t want to follow that idea only, I don’t want to stop being myself».

 
 
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Vindo de uma geração que não vivia do digital ou de números, Ângelo tenta batalhar contra esta urgência contemporânea de só sobrevivermos com seguidores e likes nas redes sociais. Ele sabe que precisa delas — e trabalha-as bem — mas não é isso que o move. «Não devemos julgar o talento por esse critério», diz. 

No estúdio/quarto onde vive e trabalha, Ângelo apresenta-nos as suas paredes e espaço de trabalho, uma amostra generosa do que tem vindo a desenvolver ao longo do ano passado e não só. Estamos a falar de frases recriadas com base em ideias, pensamentos ou episódios que opta por adaptar e eternizar no papel. «Não tenho nenhuma estrutura para desenhar ou horas específicas para ser criativo.  Posso ter uma ideia a qualquer altura do dia, e não ando propriamente à procura delas: elas surgem e tento adaptá-las à ilustração». Esta desígnio de explorar a experiência própria em prol da criação não é algo novo, mas não deixa de ser entusiasmante ver os pensamentos de Another Angelo na sua página de instagram, que tem vindo a coleccionar seguidores que já não perdem um momento ilustrado por ele, mas também em tote bags e t-shirts serigrafas no seu estúdio com uma vista incrível sobre Lisboa, a cidade que escolheu para navegar nestas águas tão complexas como a ilustração genuína numa era tão ligada ao que nos escapa das mãos. 

«Quando crio uma frase, é aquilo que estou a sentir e nem estou a pensar no que pode resultar dali verdadeiramente. Tento criar algo que seja o espelho do que me está a acontecer e passar a mensagem para o papel».

Coming from a generation that didn’t live with numbers or the online world, Ângelo tries to fight against this contemporary urgency of only surviving with followers and likes on social media. He knows that he needs them — and he knows what he’s doing — but that’s not important. «We shouldn’t be judging talent according to that standard», he says.

In the studio/room where he lives and works, Ângelo introduces us to his walls and workspace, a generous sample of what he’s been doing last year and other years, too. We’re talking about reinvented sentences based on ideas, thoughts or episodes he chooses to adapt and eternalize on paper. «I don’t have any structure to draw or specific times to be creative. An idea can cross my mind at any time of the day, and I’m not really looking for them: they just come, and I try to adapt them to my work as an illustrator». This intention of exploring our own experience in favor of creating something is not exactly new, but we can’t stop feeling excited to read Another Angelo’s thoughts on his instagram page, which has been gathering followers who no longer want to miss a moment illustrated by him, but also on tote bags and t-shirts screen printed in his studio with a stunning view over Lisbon, the city that he chose to navigate these complex waters of genuine illustration in an era that became so attached to something that we can’t hold in our hands.

«When I draw down a thought, it’s what I’m feeling in the moment, and I’m not even thinking about what I can truly take from it. I try to create something that mirrors what’s happening to me and take that onto a piece of paper».

 
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No início, e acho que ainda tenho muito essa ideia, não me preocupava se as pessoas iriam gostar ou não, até porque o que me interessava era que eu gostasse do que estava a fazer. Se, hoje em dia, as pessoas não gostarem, mas eu gostar, ao menos sou original, sou autêntico.

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In the beginning, and I think I still feel that way, I wasn’t concerned if people would like my stuff or not, even so because I was interested in doing what I enjoyed the most. If, nowadays, people don’t like what I do, but I’m happy with it, at least I’m original, I’m authentic.

 

 

 

JOURNAL PROUST

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Another Angelo

 
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