Aheneah
 

A arte na sua condição orgânica une diferentes planos dimensionais e, a correr bem, gerações distintas. No caso de Ana Martins, vulgo Aheneah — que é o som das letras do seu nome melodicamente soletrado — esta premissa provou ser uma realidade pronta a derrubar barreiras e preconceitos ao ligar o ponto-de-cruz à street art

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Art in its most organic state connects singular dimensional planes and, if it goes well, different generations. In Ana Martins’s case, or rather Aheneah — which is the sound of each of the letters in her spelled name — this premise has proven to be a reality ready to take down barriers and stigmas by coupling cross-stitching to street art.

 

 
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Tudo começou na Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, e continuou na ESAD, nas Caldas da Rainha, onde decidiu estudar Design Gráfico. O percurso desta jovem artista natural de Vila Franca de Xira mostrou tendências, desde cedo, para certas técnicas que dificilmente poderiam ser denegadas. «Foi nas Caldas, que é uma cidade que vive bastante dos seus alunos e que tem imensas iniciativas e exposições, que senti um impulso forte de fazer parte desta comunidade artística que permite, acima de tudo, que haja muita liberdade para experimentar, e isso é essencial. Comecei a fazer peças para pequenas exposições em que experimentava muitas técnicas, como esculturas em madeira ou impressões mais clássicas em papel. Foi uma fase de experimentação incrível», recorda.

Mas foi durante a licenciatura em Design Gráfico que Aheneah que decidiu aplicar o bordado a uma temática mais actual, a outro tipo de grafismos, abrindo portas para todo um novo mundo até então não desbravado: «coincidiu com a altura em que a minha avó decidiu que me ia ensinar a fazer ponto-de-cruz — o resultado foi um pano de cozinha, que ficou muito giro, mas não era só aquilo que queria fazer». Era, sem dúvida, uma técnica com muita história, com muito por explorar e por experimentar. 

Esta ideia de pegar em técnicas tradicionais e reinventá-las para regozijo de uma dualidade de gerações carrega em si um motivo sólido: «sempre tive ligação às técnicas têxteis porque, na minha família, sempre fomos muitas mulheres e sempre todas adoraram tricotar, costurar, fazer rendas em paninhos, enfim. Desde pequena que também queria fazer parte desse clube de costura aos Sábados e Domingos. É algo que tenho muito presente. Se agora quero fazer uma coisa com uma técnica diferente é a elas que pergunto e isso é algo que me deixa ainda mais entusiasmada», conta. 

As duas gerações misturam-se e acabam por fazer parte do seu trabalho: a mais antiga conhece a história e sabe como fazer; a mais actual vê um impacto visual e uma inovação que parece fazer parte dos seus tempos. A parte gráfica acaba por ter também um pouco digital, já que é inevitável incorporar um pouco desta vertente num trabalho feito à mão.

It all started at the Escola Secundária Artística António Arroio, in Lisbon, and kept on at ESAD, in Caldas da Rainha, where she decided to study Graphic Design. The journey of this young artist born in Vila Franca de Xira showed a tendency towards certain techniques early on that could not be denied. «I was in Caldas, which is a city that feeds off its students and has a number of events and exhibitions, when I felt a strong impulse to be part of this artistic community that most of all allows us to have a lot of freedom while experimenting, and that’s major. I started by making pieces for small exhibitions in which I’d try a bunch of technique, like wooden sculptures or more classic prints. It was an incredible experimenting phase», she recalls.

But it was not until she was studying Graphic Design that Aheneah decided to employ embroidery to a more current theme, to other graphic form, opening doors to a new, brave world: «it coincided with the time that my grandma decided she was going to teach me how to cross stitch — the outcome was a kitchen cloth, which was pretty cool, but it wasn’t just what I wanted to do». It was definitely a technique with a lot of history, a lot to explore and to experiment.

This idea of taking traditional techniques and reinvent them for the pleasure of a generation duality carries solid ground within itself: «I’ve always felt connected to textile techniques because, in my family, there were always a lot of women who loved knitting, sewing, stitching cloths and lace together, you know. Since I was a kid, I wanted to be part of that sewing club every Saturday and Sunday. I still remember it well. And now, if I want to do something different, I talk to them, which makes me even more excited about this», she tells us.

Both generations merge and end up doing part of her projects: the older one knows its history and how to do it well; the younger one sees its visual impact and a kind of innovation that seems to be part of its own time. The graphic side of it ends up having a bit of a digital nuance, as well, since it’s inevitable to incorporate a bit of this aspect in a handmade type of work.

 
 
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O chamamento da street art começou antes com um grupo de amigos que se juntava para pintar na rua, da qual Aheneah fazia parte. Enquanto experimentava em posters em papel com ponto-de-cruz, letterings e derivações de tudo, sentiu na pele o boom da street art e já só pensava em levar as suas criações para a rua. ‘Go Big or Go Home’ foi a primeira peça numa parede, em 2016, uma composição que reuniu cerca de 400 pregos e vários metros de trapilho para chegar a uma Nike Air Max multicolor. Depois de partilhar o que fazia nas redes sociais e de receber feedback muito positivo, arriscou passar para a parede, ainda que com alguma reservas: «foi muito estranho, porque não acreditava que fosse dar, mas acabo por ser uma pessoa que gosta muito de tentar fazer o impossível, mesmo quando me dizem que não dá». 

A partir daqui, a palavra começou a espalhar-se e o seu desejo de sentir que as pessoas gostam do que faz e que há entidades a querer apoiá-la nesta aventura incrível concretizou-se, tudo no seu tempo. Surgiu ‘Matriz’, para o festival WOOL, na Covilhã, uma homenagem à sua bisavó Narcisa que a ensinou a tricotar a sua primeira peça, um tributo que pode ser visto na Casa dos Magistrados. Depois de outros quantos, ‘Switch-over’ é um dos seus mais recentes projectos, um mural numa das principais ruas de Vila Franca de Xira por onde passam centenas de alunos de casa para a escola e vice-versa, agora experienciando um momento de divagação e busca por uma fuga à rotina — esta peça já exigiu 2300 parafusos e 700 metros de fio de lã.

Foi o Village Underground Lisboa que nos juntou para esta conversa animada com a Aheneah, onde o seu mural ‘WHY NOT?’ se evidencia e exalta num dos contentores que ladeia a soalheira esplanada deste espaço incrível. «O VU lançou-me o desafio de fazer uma fachada de um dos contentores, e o facto de agora fazer projectos de arte urbana públicos e de ter estudado Design Gráfico faz com que tenha ainda muito este pensamento. Normalmente, na área artística, a tendência é fazer algo introspectivo, os teus temas, a tua linguagem. Acho que tenho muita influência do que estudei que é resolver um problema que exige responder a uma questão, a uma necessidade, a um briefing — e o facto de eu trabalhar na rua e para pessoas faz com que isso ainda seja mais acentuado, sinto que tenho mesmo necessidade de responder a essas pessoas, ao que elas estão a pensar, ao que elas estão a viver. E o VU é um sítio de experiências, de coisas novas, de estar pronto para tudo, de inovações, por isso, WHY NOT? — e tem tudo a ver com dimensão, tanto neste como noutro trabalho: quanto maiores as cruzes, mais desafiada me sinto».

The street art calling began earlier thanks to a group of friends that would get together to paint in the streets, and Aheneah was one of them. While she was experimenting in paper posters with cross-stitching, letterings, and derivations of everything, she saw the street art boom was happening and could only think of taking her creations outside. ‘Go Big or Go Home’ was her first piece on a wall, in 2016, a composition that put together about 400 nails and several metres of fabric yarn to build a multicoloured Nike Air Max. After sharing what she’s been up to on social media and getting positive feedback, she took a risk and stepped it up to a wall, though with some reservations: «it was pretty weird, because I didn’t quite thought it was going to work, but I end up being a person that enjoys trying to accomplish the impossible, even when people tell me it can’t be done».

From here, the word started spreading, and the desire of feeling that people were liking what she was doing and that there are entities that want to support her in this amazing adventure became a reality, in due time. Then ‘Matriz’ happened, a piece for the WOOL Festival, in Covilhã, a tribute to her great-grandma Narcisa, who taught her how to knit her first piece, which can still be seen at the Casa dos Magistrados. After a bunch of them, ‘Switch-over’ is one of her most recent ones, a mural in one of the main streets in Vila Franca de Xira that’s crossed by hundreds of students between their home and school and vice-versa, now experiencing a moment of wander and escape from routine — this piece demanded 2300 screws and 700 metres of wool.

It was Village Underground Lisboa that brought us together for this cheerful chat with Aheneah, where her ‘WHY NOT?’ mural stands out on one of the containers that stands alongside the sunny outdoor seating area of this amazing spot. «VU challenged me to work on a façade on one of their containers, and the fact that I now make public street art projects and studied Graphic Design makes me still have this line of thought. Usually, in art, the tendency is to make something more introspective, your themes, your languages. I think that I’m still influenced by what I studied, which means to solve a problem and answering a question, a need, a brief — and the fact that I work on the street and for people makes it stand out even more, because I feel the need to answer to those people, what they’re thinking, what they’re living. And VU is the perfect place to experiment, to try new things, to be ready for everything, to innovate, so WHY NOT? — and it all has to do with dimension, in this project and others: the bigger the X-shaped stitches, the more challenged I feel».

 
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«foi muito estranho, porque não acreditava que fosse dar, mas acabo por ser uma pessoa que gosta muito de tentar fazer o impossível, mesmo quando me dizem que não dá». 

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«it was pretty weird, because I didn’t quite thought it was going to work, but I end up being a person that enjoys trying to accomplish the impossible, even when people tell me it can’t be done».

 

 

 

 

 
 

JOURNAL PROUST

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Aheneah

 
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