Joana Astolfi
 

São mais do que muitas, infinitas, se quisermos, as histórias que encerram a vida e o trabalho de Joana Astolfi, artista em todos os sentidos do termo, arquitecta, designer. Através dos seus olhos, há universos a serem reinventados, contados de novo sob uma perspectiva distinta.

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They’re more than plenty, say, infinite, the stories that encompass the life and the work of Joana Astolfi, artist in every sense of the word, architect, designer. Through her eyes, there are universes being reinvented, told again under a distinct perspective.

 

 
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No primeiro vislumbre do atelier, em Marvila, o Studio Astolfi eleva-se de imediato a um outro estádio, tanto graças à equipa que dele faz parte como o espaço em si, magnificente, industrial, generoso nas arestas. O olhar tende a dispersar-se para todos os diminutos detalhes e recantos, mas também para os objectos de dimensões respeitáveis, fruto da queda para o coleccionismo da própria Joana, característica vital do seu percurso e personalidade. 

«Desde pequenina que gosto muito de coleccionar coisas. Juntava tudo o que fosse interessante para mim ou que tivesse uma estética especial, como borrachas, lápis, piões — até hoje gosto de piões», conta-nos. Num canto específico do estúdio, mesmo ao nosso lado, como se escolhido a dedo para a nossa conversa, estão quatro piões de tamanho considerável, para os quais Joana dirige um olhar em tudo entusiasmado, quase de menina. «Isto é madeira maciça. Foram feitos para uma montra da Hermès para expor luvas», recorda.

Há cerca de 15 anos, mais coisa menos coisa, Joana regressou a Lisboa — a cidade onde se sente bem, apesar de diferentes partes do mundo serem também a sua casa — vinda da Fabrica, o centro de pesquisa criativa da Benetton, em Itália, de onde, aliás, vem o seu apelido, da avó Nena, mãe do seu pai. Antes disso, estudou Arquitectura em Gales, tendo passado um ano em Munique a propósito de um estágio do curso. «Foi uma experiência muito boa, abriu muitas portas na minha vida e na minha cabeça, na minha criatividade. Quando cheguei, sentia-me muito híbrida, entre a arquitectura, a arte e o design. Aliás, já sabia, desde que estava a acabar o curso, que a minha linguagem era realmente essa fusão, porque tenho um pai arquitecto e uma mãe galerista. Cresci em ambos os mundos».

Filha única dos seus pais, como a própria diz, refugiava-se no jeito — e vontade — para o desenho. Acompanhava os pais para qualquer lugar e, com ela, iam os seus blocos e canetas. «Os meus pais conviviam muito com amigos, muitos deles de fora do país, dinamarqueses, africanos, ingleses; jogavam cartas aos Domingos e faziam churrascos, andávamos sempre em casa de um e de outro, e eu tinha um conjunto de brinquedos que levava para esta ou aquela casa. Brinquedos, ou seja, papel e canetas, material para construir e criar. Era assim que passava o meu tempo».

After the first glimpse of the space, in Marvila, Studio Astolfi immediately raises to a whole other level, both thanks to the team and the place itself, magnificent, industrial, generous in its edges. The eyes tend to scatter to all the tiny details and corners, but also to objects of respectable dimensions, the product of Joana’s inclination towards collecting things, a vital trait in her journey and personality.

«Since I was little, I’ve enjoyed collecting stuff. I’d gather everything that would catch my eye or have a special appearance, like rubbers, pencils, spinning tops — I love tops still today», she tells us. In a specific corner of the studio, right next to us, as if it were chosen to be there for our conversation, are four considerably big spinning tops, to which Joana looks with utter excitement, almost as a little girl would. «This is solid wood. They were made for a Hermès window to display gloves», she recalls.

About 15 years ago, more or less, Joana returned to Lisbon — the city where she feels comfortable, although there are different parts of the world that are also her home — coming straight from Fabrica, the Benetton-financed creative research centre, in Italy, from where, in fact, her surname comes from, from her grandma Nena, her father’s mother. Before all that, she studied Architecture in Wales and spent one year in Munich doing an internship. «It was a great experience, it opened many doors in my life and my head, my creativity. When I got back, I felt like a hybrid between architecture, art and design. In fact, I already knew, since I was finishing my degree, that my language was really that fusion, because my dad’s an architect and my mom’s a gallery owner. I grew up among these worlds».

Her parents only child, as she usually says, she would seek refuge in her skills — and will — for drawing. She’d go with her parents everywhere and she’d bring her pens and paper. «My parents used to hang out a lot with friends, many of whom where foreigners, Danish, African, English; they played cards on Sundays and did barbecues, we were always here and there, and I had a set of toys that I’d take to this or that house. And by toys I mean paper and pens, things to build and create. This was how I’d spend my time».

 
 
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No início, após o regresso a Lisboa, Joana encontrou um espaço com cerca de 12 m2 no Bairro Alto, na Rua das Salgadeiras, pelo qual se apaixonou «à primeira vista»: tecto em madeira, paredes em pedra, um diamante em bruto. Foi lá que começou a transformar objectos, a trabalhar sozinha com as mãos, a fazer coisas, tudo isto de porta entreaberta para aquele espaço híbrido entre atelier de trabalho e loja ou micro museu de objectos encontrados. Depois de um ano e qualquer coisa, saiu de lá e, ao mesmo tempo, novos projectos começaram a surgir com mais regularidade, e foi aí que o Thibaut Dewart, um dos braços direitos desde esses primórdios, entrou na história: «um génio com as mãos, faz tudo, madeiras, metais, electricidade, ele é que realiza o sonho e está comigo até hoje». 

Depois veio o atelier na Rua da Boavista e mais um par de anos a experimentar espaços, a fazer peças e exposições de arte transformada, até chegarem, já a três com a entrada de um outro braço direito, a Joana Subtil, à intervenção artística no primeiro restaurante do Avillez, o Cantinho do Avillez, no Chiado. «Foi o primeiro momento significativo, pois era uma peça com uma escala diferente, três metros, acessível ao público todos os dias — e ficou o ponto instagrammable do restaurante até hoje. Ficou uma peça muito emblemática, essa manta cromática de objectos, e, à medida que te vais aproximando, vais-te lembrando também da tua infância, já que a peça te transporta para lá, o que é bonito».

O segundo ponto de viragem foi quando começou a trabalhar com a Hermès, cujas montras, estação após estação, passaram a ser um mundo encantado, bem como um dos seus grandes desafios criativos e de execução, uma verdadeira galeria a céu aberto a que toda a gente tem acesso, independentemente de como vivem ou do que lhes é permitido comprar. «Entrar naquele mundo através da imaginação é a melhor coisa que temos, um dos grandes dons do ser humano — pelo menos, para mim, é a minha forma de estar sozinha».

Foi também aí que sentiu a necessidade de adicionar mais elementos à equipa e de ter uma oficina in-house, «porque a nossa história está muito ligada à feitura». Actualmente, o Studio Astolfi conta com 19 elementos, Joana incluída. «Um transatlântico», como a própria lhe chama — o que não dispensa, contudo, a colaboração pontual com artesãos de vários âmbitos.

Na sua linguagem, em que a arte é o ponto de partida e o ponto de chegada também, Joana Astolfi sabe como olhar para cada brief e dar uso à carta branca criativa que a maioria dos clientes lhe passa. Ao longo dos anos, houve uma preparação de terreno que lhe permite trabalhar em vários projectos ao mesmo tempo, mas, acima de tudo, há o risco, o pensar fora da caixa, o ser disruptiva: «para mim, não existe aquela história de haver regras. Quando as há, tento dar a volta. O meu trabalho sempre foi muito assim», diz. «Mas tens de trabalhar no duro, tens de suar imenso».

In the beginning, after she returned to Lisbon, Joana found a space with about 12 m2 in Bairro Alto, which she fell in love with «at first sight»: wooden ceilings, stone walls, a diamond in the rough. There, she started transforming objects, working by herself with her hands, building things, all of this with her front door ajar that would show that hybrid place between workshop and store or mini museum of found objects. After a year and something there, she left and, at the same time, new projects started coming up more regularly, and that was when Thibaut Dewart, one of her right-hand people since the very beginning, entered the story: «a genius with his hands, he does it all, woods, metals, electricity, he’s the one making dreams come true and he’s with me until today».

Then came the studio in Rua da Boavista and a couple more years trying new places, building pieces and exhibitions of transformed art, until they got to, and this time as a trio with the arrival of her other right-hand person, Joana Subtil, to the art intervention in Avillez’s first restaurant, Cantinho do Avillez, in Chiado. «It was the first significant moment, because it was a piece with a different scale, three metres, accessible to the public every day — and it became the restaurant’s instagrammable spot until today. It became an iconic piece, that chromatic quilt of objects, and as you get closer, you start remembering your childhood, since the piece takes you there, which is beautiful».

The second turning point was when she started working with Hermès, which display windows, season after season, started being an enchanted world, as well as one of her greatest challenges in creativity and execution, a true open-air gallery to which everybody has access, regardless of how they live and what they’re can buy. «To enter that world through our imagination is the best thing we have, one of the greatest gifts of a human being — at least, for me, it’s my own way of being alone».

It was also then that she felt the need to add more members to the team and having an in-house workshop area, «because our story is utterly connected to the process of making». Nowadays, Studio Astolfi has 19 elements, including Joana. «A transatlantic», as she puts it — which doesn’t leave out the occasional collaboration of different craftsmen.

In her own language, in which art is the starting point but also the finishing line, Joana Astolfi knows how to deal with each brief and use the creative carte blanche most of her clients gives her. Throughout the years, there was a work readiness that allows her to work on different projects at the same time, but, above all, there’s risk, thinking outside the box, being disruptive: «to me, the whole rule story doesn’t add up. When there are rules, I try to work around them. I’ve always wrapped up my mind on that», she says. «But you’ve got to work hard, to exceed yourself».

 
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«Para mim, não existe aquela história de haver regras. Quando as há, tento dar a volta. O meu trabalho sempre foi muito assim».

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«To me, the whole rule story doesn’t add up. When there are rules, I try to work around them. I’ve always wrapped up my mind on that».

 

 

 

 

 
 

JOURNAL PROUST

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Joana Astolfi

 
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