A Outra Face da Lua

A Outra Face da Lua
 

A Baixa Lisboeta é uma surpresa diária, tanto para quem por lá trabalha, como para quem apenas se passeia de quando em vez pelas ruas em transformação, pelas fachadas em mudança, pela confusão frenética de nativos e turistas deambulando-se de cabeça apontada ao céu. Há, contudo, uma loja — um ícone da cidade, na verdade — que há 13 anos que finca pé na Rua da Assunção e que tem acompanhado os tempos com a pompa e circunstância que lhe é devida: A Outra Face da Lua.

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Lisbon’s downtown district — Baixa — is a daily surprise, both for those who work there and for those who just stroll around the ever-changing streets, the façades that are constantly turning into something else, the frantic hassle of locals and tourists roaming around with their heads pointing to the sky. However, there is a store — an icon, to be honest — that for 13 years has rested in Rua da Assunção and keeping up with modern times with the grandeur that it deserves: A Outra Face da Lua.

 

 

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«Quando viemos para cá, a Baixa estava a definhar. Faltavam pessoas, faltavam obras, faltavam portugueses, faltavam turistas», diz Carla Belchior, uma das fundadoras e proprietárias da loja vintage e de peças em segunda mão mais inspiradora de Lisboa — ainda que esta descrição fiquei muito aquém da essência d’A Outra Face da Lua. «O nosso statement foi mesmo vir para cá porque a nossa missão foi sempre chegar ao maior número de pessoas possível». 

Ao longo destes anos, depois de saírem do Bairro Alto e de se instalarem aqui, têm mostrado às pessoas o que é o vintage, mas não só. A sustentabilidade e o seu carácter urgente existem, mas não são novidade para Carla, que sempre tentou falar sobre isso e actuar perante os cenários de pouca consistência ética, do mass market e da roupa a um preço muitíssimo reduzido. «É preciso mudar os hábitos de consumo», reitera.

Brindadas com um dia soalheiro, sentámo-nos na esplanada do café d’A Outra Face da Lua, um espaço com ligação directa ao interior da loja, imiscuído propositadamente nesse ambiente antigo e saudoso, como se proporcionasse uma viagem ao tempo muito espontânea. Paredes cheias, malas, jóias, casacos, vestidos, espelhos, mobiliário de uma era e qualidade que já não se vêem com a frequência que gostaríamos. As cores são o que mais encanta, e os detalhes, um universo de bricabraque muito intencional que nos transporta até tempos idos, completam o cenário de sonho. 

«Isto é totalmente o meu gosto pessoal. Um dos meus motes será sempre não olhar para fora, para o que os outros fazem, mas para dentro. Não tem a ver com egocentrismo, mas significa antes seguir o instinto e concentrar-me no que será sempre melhor para a missão da loja. E esta missão tem mais a ver com altruísmo do que com moda, e tem corrido muito bem a esse nível, o que me dá satisfação absoluta. Quando olhamos para dentro, para nós, para o que queremos, nunca podemos atribuir as responsabilidades a outros».

«When we came over here, this neighbourhood was withering. It needed people, it needed construction work, it needed Portuguese people, it needed tourists», says Carla Belchior, one of the founders and owners of the most inspiring vintage and second-hand store in Lisbon — even though this description falls short of A Outra Face da Lua’s true essence. «Our statement was coming here because our mission was always getting to the larger number of people possible».

Over the years, after they left Bairro Alto and established right here, they have been showing people what vintage means, but not just that. Sustainability and its urgent character are there, but they are not news for Carla, who always tried to talk about it and act upon these settings that lack ethical consistency, of the mass market and clothes being sold at a really low price. «We have to change consumption habits», she underscores.

Presented with such a sunny day, we sat at A Outra Face da Lua’s café terrace, an area with direct access to the store itself, purposely involved by this kind of old timey, nostalgic atmosphere, as we were being taken on a very spontaneous journey through time. Packed walls, bags, jewellery, coats, dresses, mirrors, furniture from a time and with that kind of quality one doesn’t see as often as one would like. Colours are what captivates the most, and the details, an utterly intentional universe of knickknacks that takes us to olden times, complete this whimsical scenario.

«This is completely made of my personal taste. One of the mottos will always be not to look outside, to what other people are doing, but inside. It is not about self-centredness, but rather following our instinct and focus on what is best for the store’s mission. And this mission has a lot more to do with altruism than with fashion, and everything has been flying smoothly so far, which gives me absolute fulfilment. When we look inside, at ourselves, at what we want, we can never bestow responsibilities to anybody else».

 
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«É preciso mudar os hábitos de consumo».

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«We have to change consumption habits».

 

Depois de assistir a uma conferência com Al Gore como um dos oradores, Carla decidiu implementar algumas mudanças na loja, começando pela abolição dos sacos de plástico, disponibilizando apenas os reutilizáveis ou apelando aos clientes que levem o seu próprio saco — para ali e para todo o lado. «O benefício não é só para nós, é para todos», remata.

Esta bandeira ambiental hasteada com orgulho n’A Outra Face da Lua quer provar que é possível, que somos capazes de ajudar o planeta, mas também que a moda, na sua natureza, está indelevelmente ligada à ecologia. «As pessoas querem ser únicas. Somos todos únicos, não é? Ninguém é igual! Se uma pessoa quer ser única, como é que pode sê-lo comprando e escolhendo de entre mil peças iguais?».

De pensamento ponderado e opiniões certeiras, Carla não deixa passar em branco outro dos motivos que a levou, certamente, a edificar A Outra Face da Lua, mesmo que não o tenha feito sozinha. «Gosto muito de roupa, de identidade, de tecidos bonitos e de padrões. Ponto. Gosto muito que a minha roupa não magoe o planeta, gosto muito de ter feito isto muito bem feitinho de forma a que as pessoas entrem dentro da loja e, como está tudo por cores e muito bem organizado, se sintam bem lá dentro».

Do passado não se fala e o futuro é, já por si, incerto: «espero que A Outra Face da Lua continue bonita, fresca, idealista e pragmática — é uma loja com muita dignidade, porque sempre trabalhou com coisas que as pessoas não queriam, e nós sempre aproveitámos e elevámos estas coisas a outros patamares».

After attending a conference with Al Gore as one of the speakers, Carla decided to enforce a couple of changes on the store, starting by the ban on plastic bags, putting available the reusable ones or urge customers to take their own bag — there and everywhere else. «The benefit is not just for us, is for everybody», she says.

This proudly hoisted environmental flag at A Outra Face da Lua intends to prove that it is possible, we are capable of helping the planet out, but also that fashion, in its core, is indelibly connected to ecology. «People want to be unique. We are all unique, aren’t we? No one’s the same! If someone wants to be unique, how can that happen if we are buying and choosing from a thousand garments that are just the same thing?».

Of balanced thoughts and assertive opinions, Carla doesn’t ignore one of the other reasons that certainly led her to build A Outra Face da Lua, even if not on her own. «I love clothes, identity, beautiful fabrics and patterns. That’s it. I love that my clothes are not hurting the planet, and I really enjoy the idea that I made all of this so that people come into the store and, since everything is arranged by colours and is well organised, feel good there». 

We don’t talk about the past and the future is naturally uncertain: «I hope that A Outra Face da Lua stays pretty, fresh, idealistic and pragmatic — it’s a store with dignity, because it always embraced the things that people didn’t want in their lives, and we took advantage of it and took it to a whole other level».

 
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