Maria Imaginário

Maria Imaginário
 

É sempre um gosto e um prazer imenso quando uma artista plástica como Edna Costa — vulgo Maria Imaginário — nos abre a porta do seu estúdio, que é também o seu lar doce lar. Os dois mundos misturam-se como se de uma paleta de infinitas sobreposições se tratasse, à mercê das mãos de quem pinta sem falhar um fôlego.

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It is always an utter pleasure when a visual artist like Edna Costa — a.k.a. Maria Imaginário — welcomes us in her studio, which is also her home sweet home. Both worlds blend together, as if they were a palette of endless overlays, at the mercy of hands that paint without missing a beat.

 

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Foi em 2005 que Edna começou a espalhar os seus gelados multicolores pelas ruas de Lisboa, uma marca indelével da qual é difícil esquecermo-nos, mas que, desde então, já sofreu reviravoltas visíveis que se materializam em instalações, escultura, cerâmica e outros formatos que tais. «Acho que nunca estou igual; parece que, de ano para ano, fico diferente. Sinto que tenho ainda muito para crescer, mas, ao mesmo tempo, sei que estou a fazê-lo, e o meu trabalho cresce com isso, também. Por outro lado, nunca estou satisfeita, mas onde noto maior diferença é na maneira como encaro as coisas: isto está a correr mal, isto era para ser vermelho e vai ser azul, era para ser de uma forma, mas vai ser o oposto — mil incidentes e imprevistos que acontecem. Acho que há dois anos, por exemplo, ficaria em pânico com estas coisas, mas agora respiro fundo e tento arranjar uma solução. Já não perco tempo com dramas e tento ser mais prática e racional. Já sou emotiva q.b. — OK, sou mais do que q.b., na verdade».

No dia-a-dia, Maria Imaginário vê-se como uma esponja do que acontece consigo e com as pessoas à sua volta, e é assim que a conhecemos e adoramos, com a emoção à flor da pele, a tristeza nos contornos, a mágoa, muitas vezes carregadas de histórias de humor e de ironia, nas telas. A narrativa comum, aliás, traduz-se em corações partidos, em almas despidas de felicidade e em personagens nostálgicas, cientes da sua terrível realidade, mas, nos últimos tempos, notam-se detalhes novos, abordagens do feminino, do corpo da mulher como libertação do traço, sempre com o universo de cores que lhe é apanágio. 

It was in 2005 when Edna began spreading her multicoloured ice creams all over Lisbon, an indelible trademark from which it is hard to detach ourselves from, but since then it has come across palpable twists that came to life as installations, sculpture, ceramics and other such formats. «I think that I’m never the same; it seems like I become different each year. I feel like I still have a whole lot to grow, but at the same time I know I’m doing it, and my work grows with that, too. On the other hand, I’m never satisfied, but where I see a bigger difference is in the way I deal with things: this is going badly, this was supposed to be red and it’s going to be blue, this was supposed to go one way, but it’s going to be the total opposite — a thousand incidents and unforeseen events that happen. Two years ago, maybe, I would just panic, but now I just take a deep breath and try to figure something out. I no longer waste time with drama and I try to be more pragmatic and rational. I’m already somewhat emotional — OK, perhaps more than somewhat, to tell you the truth».

On her day-to-day life, Maria Imaginário sees herself as a sponge that absorbs what happens to her and the people around her, and that’s how we know and love her, wearing her heart on her sleeve, the sadness on her strokes, the sorrow, often carrying stories of humour and irony, on her canvas. The common narrative, in fact, translates into broken hearts, souls that are barren of happiness and nostalgic characters, aware of their terrible reality, yet over the last couple of years, there are new details emerging, woman-related approaches, the female body as a freeing tool, always with the universe of colours that we know so well.

 
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 «Não quis fazer uma coisa provocadora, mas algo sem tabus, sem censura; queria apelar mais ao lado feminino e brincar com isso, com o estares à vontade e isso não ter mal algum».

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«I didn’t want it to look provocative, but I wanted to create something with no taboos or censorship; I wanted to appeal to the feminine side and play with it, with being comfortable with that and there being nothing wrong with it».

 

Este ponto de viragem é aparente particularmente na sua mais recente exposição, ‘Marie Antoinette says au revoir!’, uma ode à aristocrata francesa e seus mistérios, extravagâncias e caprichos, ode esta transformada em instalação na Travessa da Ermida, em Belém, qual altar divino. «Demorei um ano e tal a pintar este quadro da Marie Antoinette. Custou-me fazê-lo porque, quando o comecei, foi o princípio de uma mudança, uma fase da minha vida em que me despedi de coisas que achei que eram tóxicas para mim; acho que o simbolismo é mesmo esse. E, por outro lado, estou a dizer adeus àquela estética “dos quadros na parede” — sempre achei que isto era o mais importante, os quadros, mas já não».

Esta exposição na Travessa da Ermida foi, então, «um pouco atípica» do que costuma fazer, talvez por estar cada vez mais interessada em trabalhar os tais outros formatos, em jeito de desafio aos seus hábitos e costumes. Há todo um lado de mãos na massa, de construção, edificação, montagem muito propícias à instalação. «Para mim, foi um risco, mas acho que correu bem. Só lá pus três quadros e optei por uma linguagem muito simples. Fiz um degradé de cores, que é o meu forte — se, algum dia, alguma coisa me puxou para as artes foram as cores, e não propriamente a parte figurativa; fico deslumbrada com cores, horas a fio a olhar para a minha paleta», confessa. «O que unifica o meu trabalho, no geral, das instalações às esculturas e aos quadros, o que une tudo isto são as cores. Eu própria sou uma paleta e aproprio-me dela, de certa forma. Na Travessa da Ermida, quis criar um ambiente — entras naquela sala e tens um cenário específico — e é isso em si que é mais poderoso do que os quadros».

Desta linguagem mais minimalista que começa agora aos poucos a fundir-se com o modus operandi de Maria Imaginário, destacam-se, incautas, as peças de barro vidrado — feitas em conjunto com o estúdio criativo e oficina de cerâmica Sedimento — em forma de maminhas sorridentes, “As Mariazinhas”, lado a lado, dando as boas vindas a quem entrava. Ao centro, Marie Antoinette de partida, despedindo-se dos demais, envolvida por tons pastel e figuras que tão bem conhecemos. Paralelos à derradeira rainha estavam dois quadros que combinavam características inocentes e cândidas com concepções sexuais e do corpo humano. 

«Não quis fazer uma coisa provocadora, mas algo sem tabus, sem censura; queria apelar mais ao lado feminino e brincar com isso, com o estares à vontade e isso não ter mal algum. Quis fazer algo simples, que a união daquelas peças fosse mais a questão sensorial, que não tem propriamente a ver com desamor, mas algo mais divertido. Tenho muita necessidade de pintar isso. É algo muito íntimo, uma catarse».

This turning point is observable particularly in her latest exhibition, ‘Marie Antoinette says au revoir!’, a tribute to the French noble and her mysteries, extravagances and whims, a tribute turned into installation at Travessa da Ermida, in Belém, as a sacred shrine. «It took me over a year to paint this Marie Antoinette. It was hard for me to do it because, when I started, it was the beginning of a change, a stage in my life when I said goodbye to things I believed were toxic for me; I think that’s exactly the symbolism behind it. And, on the other hand, I think I’m also saying goodbye to that whole aesthetics of “paintings on the wall” — I used to think that this was the most important thing, the paintings, but not anymore».

This exhibition at Travessa da Ermida was therefore «a bit unlike» what she usually does, maybe because she’s increasingly more interested in working on those other formats, as a challenge to habits and conventions. There is a whole thing of getting your hands dirty, of making, of building, of structuring that are very favourable to installations. «To me, it was a risk, but I think it went well. I only displayed three paintings and chose a very simple language. I went for a colour gradient, which is my strong suit — if there was anything that ever led me to pursue art were colours, not exactly the figurative elements; I’m always stunned by colour, hours and hours spent looking at my palette», she confesses. «What unifies my work, overall, from installation to sculpture and paintings, it’s colour. I am a palette myself and make use of it, in some way. At Travessa da Ermida, I wanted to create an atmosphere — you enter that room and have a specific backdrop — and that on itself can be more powerful than paintings».

From this more minimal language that is beginning to merge, step by step, with Maria Imaginário’s modus operandi, our attention goes to the glazed clay pieces — made together with the creative ceramics’ studio Sedimento — in the shape of smiling breasts, called “As Mariazinhas”, side by side, welcoming everyone who came in. In the middle, Marie Antoinette is leaving, saying goodbye to all present, involved in pastel tones and characters we all know. Parallel to the ultimate queen were two paintings that combined innocuous, candid traits with sexual concepts of the human body.

«I didn’t want it to look provocative, but I wanted to create something with no taboos or censorship; I wanted to appeal to the feminine side and play with it, with being comfortable with that and there being nothing wrong with it. I wanted to do something simple, that the union of those pieces were more related to the senses, which has nothing to do with falling out of love, but something more fun. I really have a certain need to paint that. It’s something very intimate, cathartic». 

 
 
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JOURNAL PROUST

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Maria Imaginário

 
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