A Sociedade
 

Delicadamente enfurnada numa fachada oculta do Príncipe Real, A Sociedade quase que passa despercebida aos que por ali passam, rua acima, rua abaixo. Mas quando o assunto é slow food, sustentabilidade e natureza, todos os caminhos vão dar a esta oficina criativa gastronómica. 

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Gently nestled in a hidden façade of Príncipe Real, A Sociedade almost goes unnoticed to those passing nearby, up and down the street. But when the subject matter is slow food, sustainability and nature, all roads lead to this food-oriented creative studio.

 

 

 
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Após uma mão-cheia de anos dedicados a vários projectos editoriais relacionados com comida — sempre a comida —, Cláudia Villax, a sorridente fundadora, abriu as portas d’A Sociedade. «Queria que fosse um lugar que tivesse luz, pois só fotografo com luz natural, que fosse calmo para trabalhar e que, de certa forma, trouxesse também a natureza para o interior, daí termos misturado as madeiras com os apontamentos brancos, já que aqui funciona também a Azeitona Verde», conta Cláudia, referindo-se a outro dos seus grandes sonhos tornados realidade, um olival milenar de produção de azeite biológico. Mas já lá iremos. «A ideia [da cabeça] do veado a sair da parede era mesmo para transmitir o conceito de natureza incrustada no urbano e que quer vir cá para fora».

Quando o espaço ficou pronto, de imediato despontou a pretensão de o partilhar com outras pessoas, estimulando a criatividade e a reunião em torno da comida e da forma como a produzimos e encaramos. Assim nasce A Sociedade e também assim ficamos a conhecer este pedaço de céu luminoso e cristalino pontilhado com flores e livros, que só ficaria completo com uma enorme mesa de madeira que para ali chama todos os que à sua volta querem perder-se em conversas, sabores e, acima de tudo, conhecimento do que é verdadeiramente bom e feito com o coração. «Quando A Sociedade foi criada, como estava muito envolvida com comida e alimentação em geral, e graças à minha formação em agricultura biológica, o que sentia era que as pessoas não estavam bem informadas do que se estava a passar com a comida. Agora é incrível, pois finalmente já se vêem revistas e jornais destacarem artigos sobre este tema, o que há uns anos era completamente improvável de acontecer. No fundo, um dos nossos principais objectivos era “educar” o gosto das pessoas, convidando, por exemplo, chefs para fazerem pratos com uma abordagem diferente ou típica dos seus países de origem ou até mesmo de outro tipo de cozinhas para dar a conhecer sabores, paladares e texturas distintas».

After a handful of years devoted to different publishing projects linked to food — always food —, Cláudia Villax, the cheerful founder, opened A Sociedade’s doors. «I wanted it to be a bright place, as I only photograph with natural light, a calm place to work and that, in a way, could also bring nature inside, so that’s why we mixed wood with the all-white splashes — and because Azeitona Verde operates from here, as well», says Cláudia, referring to another of her dreams that came true, an ancient olive grove that produces organic olive oil. But we’ll get there pretty soon. «The idea of the deer [head] tearing through the wall was meant to convey the concept of nature embedded in the city, wanting to come out».

When the space was ready, the desire to sharing it with other people quickly arose, stimulating creativity and the act of gathering around food and the way we produce it and perceive it. Thus, A Sociedade is born, which allowed us to get acquainted with this pristine, shiny peace of heaven, only complete with a massive wooden table that summons everyone around it who want to be lost in chats, flavours and, above all, knowledge of what’s truly good and made with nothing but heart. «When A Sociedade was created, since I was very much involved in food and eating in general, and thanks to my training in organic farming, what I felt was that people weren’t aware of what was happening with food. Now it’s amazing, as we finally see magazines and newspapers highlighting articles about this subject, which a few years ago would be utterly unlikely to happen. Ultimately, one of our main purposes was to “educate” people’s taste by inviting, for example, chefs to create dishes with a different approach or something typical of their countries or even some other kind of cooking to uncover new flavours, taste perceptions, and textures».

 
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«(...) No fundo, um dos nossos principais objectivos era “educar” o gosto das pessoas, convidando, por exemplo, chefs para fazerem pratos com uma abordagem diferente ou típica dos seus países de origem ou até mesmo de outro tipo de cozinhas para dar a conhecer sabores, paladares e texturas distintas».

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«(...) Ultimately, one of our main purposes was to “educate” people’s taste by inviting, for example, chefs to create dishes with a different approach or something typical of their countries or even some other kind of cooking to uncover new flavours, taste perceptions, and textures».

 

No centro deste propósito, impuseram-se naturalmente workshops e, mais tarde, talks como o ‘Beyond the Sea’, em que juntaram uma série de pessoas que sabiam muito acerca do mar: David Abecassis, biólogo marinho, Célia Rodrigues, produtora de ostras, Rosa Cunha, comerciante de peixe, e André Magalhães, chef, conhecido pela sua Taberna da Rua das Flores. «Foi um ponto de viragem muito bom, porque, até determinada altura, acho que os meios estavam muito presos pela força que as marcas têm sobre eles. Quando começámos essa talk, disse que ali só iríamos dizer a verdade e nada mais do que a verdade, sem filtros, e estava nas mãos dos jornalistas passarem essa informação ou não. Na altura, creio que não estava ninguém a fazer essa partilha e exploração desses temas, portanto foi uma área em que fomos pioneiros e correu mesmo bem. Depois disso, fizemos também o do solo, ‘Oh Deer! Solum’, que foi imensamente interessante, pois 99% dos nossos alimentos provêm do solo, por isso convêm falar sobre ele».

A seguir, chegaram os jantares pop up e os eventos, mantendo sempre, contudo, os mesmos padrões que os guiam desde a génese do projecto. «Em tudo o que faço, os princípios que mais valorizo são o mais importante».

A Azeitona Verde chega-nos, então, como «o mundo das maravilhas no campo» como refere Cláudia, visivelmente entusiasmada e orgulhosa deste projecto que lhe é tão querido. Inserido no Parque Natural da Serra de São Mamede, mais particularmente em Marvão, este olival é completamente diferente dos outros, pois não está feito para ser rentável e mistura policulturas com um pouco de floresta — há carvalhos a crescer lá pelo meio, uma espécie protegida do Parque, mas não tão valorizada quanto deveria.

At the core of this drive came the workshops and also the talks, later on, like ‘Beyond the Sea’, in which they gathered a number of people that knew a lot about the sea: David Abecassis, marine biologist, Célia Rodrigues, oyster farmer, Rosa Cunha, fish seller, and André Magalhães, chef, known for his Taberna da Rua das Flores. «It was an amazing turning point for us, because, up to a given time, I believe that the media were too stuck to what advertising wanted to do. At the beginning of that talk, I said we were there to tell the truth and nothing short of the truth, no filter, and the media had a choice to write about it or not. At the time, I think no one was doing that, sharing and exploring these kind of issues, so it went pretty well, we were trailblazers in that aspect. After that, we did a talk about the soil, too, the ‘Oh Deer! Solum’, which is incredibly interesting, as 99% of what we eat comes from the ground, so I guess it makes sense to talk about it».

After this came the pop-up dinners and the events, albeit keeping the same patterns that have been guiding them since the beginning of the project. «In everything I do, the principles I value the most are what matters to me».

Azeitona Verde is therefore a «world of wonders in the countryside», as Cláudia, noticeably excited and proud of this beloved project of hers, describes it. Located within the Serra de São Mamede Natural Park, specifically in Marvão, this olive grove is quite different from the others, as it is not being explored to be profitable and it mixes polycultures with forest — there are oak trees growing around the farm, a protected species in the Park, but not as valued as it should be.

 
 
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«O meu sonho é recriar o microcosmo que existia há muitos anos, acompanhado pela produção de azeite. Este azeite do “olival das maravilhas” é de produção limitada, fazemos poucas garrafas, entre três a quatro mil por ano, mas é o azeite mais puro que existe — tens a minha palavra».

Há muitos azeites muito bons, é uma verdade, mas é o lado familiar que o torna tão especial, todo o cuidado e respeito que lhe é dado, desde o solo, uma das paixões de Cláudia, até estar cá fora. 

Uma coisa é certa: A Sociedade, bem como todos os projectos a ela associada, não seria o que é se não tivesse todos estes valores tão incutidos em tudo o que ali se faz diariamente, pois não é só fazer por fazer, é fazer por e com gosto.

«My dream is to recreate the microcosm that existed many years ago, alongside the olive oil production. This olive oil from the “wonderland olive grove” is of limited production, we don’t make many bottles, between three and four thousand a year, but the olive oil is the purest there is — you have my word».

There are plenty of great olive oils, for sure, but the family aspect makes it ever so special, all the care and respect put into it, from the soil, one of Cláudia’s passion, until it the end result.

One thing’s for sure: A Sociedade, as well as all the projects connected to it, wouldn’t be what it is today if it didn’t hold all these values that are so rooted to what happens there on a daily basis, as it is not about just doing it, it’s doing it tastefully with pleasure.

 
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