Gonçalo Prudêncio

Gonçalo Prudêncio
 

Antes de ser Ghome, Gonçalo Prudêncio foi um sem número de outras denominações, mas a matéria pura de que é feito esteve — e está ainda — sempre lá: sustentabilidade económica e ecológica em tudo o que faz, do pensamento à criação.

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Before becoming Ghome, Gonçalo Prudêncio was a multitude of other aliases, but the pure matter of which he’s made has always been — and still is — there: economic and ecological sustainability in everything he does, from thought to action.

 

 
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Ainda antes de acabar o curso de Design de Produto, Gonçalo mudou-se para Milão para logo depois partir para um estágio em Roterdão. O amor levou-o para Copenhaga, onde se manteve durante dois anos. «Sempre senti vontade de ser dono do meu próprio tempo e das minhas opções profissionais, e foi o que fiz na altura». Estávamos em 2005 quando o amor se desvaneceu e Portugal voltou a fazer parte dos planos. Mas Lisboa não era bem onde queria estar, então passou a dividir o tempo entre Berlim e Sintra. Neste vai e vem articulado entre vários cantos e recantos da Europa, chegou a crise, o cenário de bicho-papão de falência e a necessidade de dar a volta, mas também de repensar tudo: «Foi precisamente aí que se deu esta viragem. Das duas, uma: ou não tinha talento para a profissão e era por isso que estava como estava, ou estava a sofrer de uma maleita mais generalizada que me apanhou da mesma forma que outras foram apanhadas. Preferi escolher a segunda opção».

Nesta fase, Gonçalo reflecte, também, sobre o papel da indústria em Portugal, numa altura em que todas as atenções estavam viradas para a Ásia em termos de produção, ainda que o nosso país exportasse muito e deixasse pouco para os de cá. Foi aqui que começou a encarar dois papéis que ainda hoje o definem, o de designer e o de comercial num género de one-man-show com poucos precedentes no país, com um princípio em jogo: «Tentar, desta maneira, perceber a cadeia de custos afectos a um produto e por que é que eu, enquanto designer, não consigo comprar um produto de um colega meu; a cadeia de valor é de tal forma que a peça chega ao ponto de venda com um preço absurdo — o ideal seria perceber até quando é que conseguimos manter esta lógica de custo sem compromisso da qualidade final». 

 

Even before he finished his degree in Product Design, Gonçalo moved to Milan, and soon after set off to Rotterdam to do an internship. Love took him to Copenhagen, where he stayed for almost two years. «I’ve always felt the need to be the owner of my own time and my work options, and I had that at the time». We were in 2005 when love faded away and Portugal was part of the plan yet again. But Lisbon wasn’t quite where he wanted to be, so he started spending his time between Berlin and Sintra. Along this back and forth — articulated between countless European nooks and crannies — came the financial crisis, the boogieman-esque scenario of bankruptcy and the need to turn things around, and to rethink everything as well: «It was precisely then that this turning point arose. There were two chances here: I was either talentless and that was why I got where I was, or I was suffering from a more widespread disease that caught up with me the same way it caught up to other people. I decided to go with the second option».

At this stage, Gonçalo also reflects on the role of the industry in Portugal at a time when all eyes were on Asia in terms of production, though our country was exporting a lot and left little behind for us. This was when he started assuming two positions, designer and salesperson in a sort of one-man-show with little precedent here, with one stake at hand: «To try and figure out the chain cost fixed to a product and why is that I, as a designer, can’t buy something from a fellow designer; the value chain is such that the product reaches the point of sale with a ridiculous price — it would be excellent to understand until when we’ll be able to keep this logic of cost without compromising the quality of the end product».

 
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«Sempre senti vontade de ser dono do meu próprio tempo e das minhas opções profissionais, e foi o que fiz na altura».

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«I’ve always felt the need to be the owner of my own time and my work options, and I had that at the time».

 

A partir daqui, e sem contactos privilegiados nos sectores que lhe interessavam — madeira, cortiça e mármore — lançou-se aos lobos e encontrou quem lhe produzisse as primeiras tipologias em Sintra: a mesa Pinho, o banco Munge (no tamanho mais pequeno) e a mesa Centro. Estas três peças comprovam manifestamente que a matéria-prima local e as formas de todos os dias são traços vincados do trabalho que desenvolve em todas as frentes. Tudo isto teve «muita reflexão por trás, muito do meu percurso pessoal baseava-se nisso», comenta, apontando a mais-valia comercial e a competitividade no mercado como dois factores de peso; ainda que haja um outro que lhe trouxe particular reconhecimento: ecolomia. «É engraçado, mas muitas pessoas corrigem esta palavra, na sua maioria, para ‘economia’ e nunca ‘ecologia’. Para mim, ecolomia é o equilíbrio perfeito entre os dois termos e, para mim, representa sustentabilidade. Esta premissa é quase fundamentalismo da marca, tem de haver um esforço muito grande para perceber se este ou aquele produto vai precisar de vender quantidades doidas».

After this, and with no privileged contacts in the fields that interested him — wood, cork and marble — he threw himself to the lions and found people who’d produce the first typologies in Sintra: the Pinho table, the Munge stool (in the smaller size) and the Centro centre table. These three clearly ascertain that the local raw material and the everyday shapes are pronounced features of the work he does on all fronts. Everything entailed a lot of «reflection behind it, since much of my personal path was based on it», he says, pointing out the selling added value and the market competitiveness as two heavyweight factors; although there’s another one that has brought him a special kind of recognition: ecolomy. «It’s funny, most of the people corrects this word to ‘economy’ and never ‘ecology’. For me, ecolomy’s the perfect balance between both terms and from my point of view it represents sustainability. This premise’s almost like fundamentalism to our brand, we have to put in a lot of effort to figure out if this or that product is going to need to sell huge quantities».

 
 
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«É engraçado, mas muitas pessoas corrigem esta palavra, na sua maioria, para ‘economia’ e nunca ‘ecologia’. Para mim, ecolomia é o equilíbrio perfeito entre os dois termos e, para mim, representa sustentabilidade. Esta premissa é quase fundamentalismo da marca, tem de haver um esforço muito grande para perceber se este ou aquele produto vai precisar de vender quantidades doidas».

 

Ora, através da sua Ghome, é possível ver que todos estes conceitos e correntes de pensamento têm uma razão de ser. As colecções seguem-se umas após outras como montras de tudo o que é bom e belo e, neste caso, útil. Às três linhas que mencionámos, juntam-se uma outra série delas, de mesas a tigelas, mas há um projecto que trouxe, contudo, um sucesso inesperado: Flor, uma jarra em porcelana de contornos hexagonais feita à mão por Margarida Fabrica e André Melo, que se tornou uma espécie de ode aos ornamentos solitários, sejam eles plantas ou, lá está, flores. A colecção Aço, por outro lado, cresceu e passou de um banco (personalizável no que diz respeito à cor, tal como praticamente todas as peças da Ghome) a também uma mesa e um banco corrido, uma família portuguesa, com certeza, que agora pode dar boas vindas mais concretas à, também ela nova, colecção Barro, um conjunto composto de prato, copo e tigela naquele tom terracota que tem um lugar cativo nas prateleiras e armários de tantas cozinhas por este país afora.

Gonçalo Prudêncio, vulgo Ghome, sabe — e sabe-o bem — que o que se faz por cá é de valor inestimável, e vais mais além da simples afirmação ao recorrer a pequenas oficinas e a matérias-primas muito nossas que, de uma forma ou de outra, acabam por ser descartadas dos nossos costumes de consumo. Na essência, Ghome pratica o que prega com gosto, equilíbrio e sustentabilidade — que mais podemos pedir?

«It’s funny, most of the people corrects this word to ‘economy’ and never ‘ecology’. For me, ecolomy’s the perfect balance between both terms and from my point of view it represents sustainability. This premise’s almost like fundamentalism to our brand, we have to put in a lot of effort to figure out if this or that product is going to need to sell huge quantities».

Well, through his Ghome, it’s possible to grasp that all of these concepts and currents of thought have their own raison d’être. Collections are launched one after the other like storefronts with everything that’s good and beautiful and, in this case, useful as well. To the three lines we mentioned, let’s add another handful of them, from tables to bowls, though there’s a project that has brought some unexpected success: Flor (flower), a porcelain vase with hexagonal traits handmade by Margarida Fabrica and André Melo, which has become an ode to lonely ornaments, be them plants or, as the name suggests, flowers. The Aço collection, in turn, grew and transitioned from a stool (customisable as far as colours go, as it happens with fairly every Ghome product) to also a table and a bench, a Portuguese family, indeed, which can now more profusely welcome the also new Barro collection, a plate, cup and bowl set in a sweet terracotta shade that holds a special place in many kitchen shelves and cupboards throughout the country.

Gonçalo Prudêncio, also known as Ghome, knows — and knows it well — that what’s done in Portugal is of inestimable value, and goes beyond that by resorting to small workshops and raw materials that are our own and which, in one way or another, end up being overlooked by our consumption habits. In essence, Ghome practices what he preaches with relish, balance, and sustainability — what more can we ask for?

 

 
 

JOURNAL PROUST

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Gonçalo Prudêncio

 
 
 
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