Manuel Tainha

Manuel Tainha
 

A primeira incursão do FORA Journal pelo mundo editorial teve lugar numa garagem. Não, não era bem isto de que estávamos à espera, mas trata-se do retiro criativo/atelier de pintura do Manuel Tainha. A luz era branca e fluorescente, o chão frio de tijoleira, mas nem por isso nos sentimos desconfortáveis no primeiro contacto. Entrámos e ali estava ele, sentado numa cadeira de verga a mudar a música, a preparar-se para a invasão iminente.

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FORA Journal’s first foray into the editorial world happened in a garage. No, this wasn’t exactly planned like this, but it’s actually the creative refuge/painting studio of Manuel Tainha. The light was white and fluorescent, the tiled floor cold, yet we didn’t feel uncomfortable per se. We went it and there he was, sitting in a wicker chair picking songs, preparing himself for the impending invasion.

 

Photography by: Maria Martins

 
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Manuel começou rapidamente a contar o percurso – não estava treinado o discurso, mas foi tudo falado com uma clareza de ideias que nos deixou sem reacção. Fez lembrar um pouco uma lição de História de Arte de alguém que já vive nesse mundo há muito tempo. Levou-nos ao imaginário do professor de fato de bombazina verde escuro, gola alta bege, barba branca e aquele cheiro característico a cigarro fumado à pressa no intervalo da manhã. 

A herança pesada deixada pela sua família de arquitectos não é sentida directamente por ele, mas por quem o ouve. Claramente não se deixou influenciar, mas antes inspirar por esse ambiente técnico de projecto, quanto mais não seja pela sua forma de trabalhar. Pode parecer ligeiramente confuso, mas a definição de “tentativa e erro” vem muito da forma de pensar projecto em Arquitectura, e isso está presente no processo criativo das artes em geral.

A lixívia, essa senhora, deixou-o nesse pantanal de ideias, de experimentação e, ao mesmo tempo, trouxe-o para uma série de novas descobertas e surpresas. Os materiais e instrumentos de trabalho do Manuel são algo fora do comum, para além da tal lixívia: panos, tecidos, máquina de costura.

 

 

Manuel quickly began telling his journey — his speech was not at all planned, but he spoke with such clarity we taken aback. It somewhat reminded us of an Art History class headed by someone who’s been in that world for a long time. It led us to the imaginary realm of the professor in a dark green corduroy suit, beige turtleneck, white beard, and that distinctive quick cigarette smell sneaked in the morning break.

The heavy legacy left by his family of architects is not felt directly by him, but for those who listen to him. He didn’t let himself be exactly influenced by it, but rather inspired by that kind of technical design atmosphere, at the very least because of his way of working. It might sound confusing, but the definition of “trial and error” is deeply connected to the way of thinking on an architectural project, and that’s part of the creative process of arts in general.

Bleach, that blessed lady, left him wandering around that marsh of ideas, of experimentation, and at the same time it brought him back to a number of new discoveries and surprises. Manuel’s resources and work tools are something out of the ordinary, in addition to the bleach: rags, fabrics, sewing machine.

 
 
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«A minha formação de Belas-Artes, não tirando crédito algum à sua importância, serviu como ignição e ponto de partida para os meus trabalhos. Rapidamente descobri o caminho por onde queria seguir, ainda que não saiba concretamente onde vou chegar.»

 

«My background in Fine Arts, while my intention’s not to disparage its importance, acted as ignition and starting point for my work. I quickly discovered the path I wanted to follow, though I still don’t know exactly where I’m going.»

 
 

De facto, não foi a faculdade que lhe abriu portas para expor em galerias em Lisboa, mas a sua experiência de Erasmus não está desligada desse mundo académico. A ida para Hamburgo, a forma como os artistas interagem entre si e o “ter de se fazer à estrada” ajudaram-no a criar uma identidade própria. Alguém uma vez disse que só fora do nosso habitat conseguimos perceber a nossa real identidade, pois as circunstâncias assim o exigem – e o Manuel não foge a esta sábia afirmação. O seu trabalhou ganhou rapidamente uma nova dimensão, e as obras que ia criando com o que tinha à mão depressa viram o seu destaque no meio e deram-lhe a possibilidade de as mostrar ao mundo. 

Curioso como algo tão nobre como a Pintura foi, neste caso, inspirado por coisas tão prosaicas como uma conversa com senhoras da limpeza que o alertaram para ter «cuidado que, com o tempo, as manchas brancas vão ficando amareladas». Frases do senso comum, da aprendizagem do dia-a-dia, nunca fizeram tanto sentido para o seu trabalho e especificamente para o resultado final. É uma técnica que provavelmente nunca vai ser dominada a cem por cento, mas não é por isso que se permite ficar bloqueado ou sem vontade de criar coisas novas.

As a matter of fact, it wasn’t college that opened the doors to exhibit in galleries around Lisbon, although his Erasmus experience is not unglued from that world. Living in Hamburg, the way artists engage with one another, and the “hit the road” setting helped him to create his own identity. Someone once said that only outside of our natural habitat we can figure out our true identity, as the circumstances require it — and Manuel is not far from this wise statement. His work swiftly gained a whole new dimension, and the work he began creating with what was available to him soon had their own spotlight and were given the possibility of being shown to the world.

It's funny how something as noble as painting was, in this case, inspired by things as prosaic as a brief exchange with cleaning ladies who cued him on «being weary of white stains turning yellow with time». Common sense assertions, as in day-to-day learning, never made as much sense as they did now for his work and specifically for the end result. This is a technique that will probably never be mastered in full, but that doesn’t leave him deadlocked or unwilling to create new things.

 
 
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«Os meus trabalhos são sempre coisas novas já vistas, não têm um período de vida – ou, pelo menos, sou eu que dito quantos anos perduram. Se quero reutilizar tecidos, telas antigas ou elementos já criados anteriormente, então reutilizo e isso leva-me a um trabalho totalmente novo.»

 

É interessante perceber que a efemeridade das suas obras está também ligada à nossa vida. Situações que nos acontecem no quotidiano são, por norma, resolvidas com experiências do passado, vivências antigas. A nossa personalidade é continuamente moldada por episódios que ficaram para trás no nosso percurso.

O pouco tempo que nos juntou em conversa revelou-nos que o regresso do Manuel a Lisboa foi feito pela porta grande – ou, pelo menos, suficientemente grande para o seu (ainda) pequeno tamanho. «Se vou trabalhar para sempre com lixívia? Não faço ideia, quem sabe se não descubro algo novo e explore a técnica até ao seu limite?».

«My artwork is always something new that has already been seen, they lack a lifespan — or at least I’m the one who has a say when it comes to how much time they should live. If I want to reuse fabrics, old canvases or elements that have already been created, I do it and it takes me to somewhere completely new.»

It’s interesting to see that the ephemeral nature of his works is also attached to our own life. Situations that happen on a daily basis are usually overcome with the aid of past experiences, previous occurrences. Our personality is continually shaped by episodes that stayed behind in our journey.

The limited time we were there unveiled to us that Manuel’s return to Lisbon was made through the wide gate — at least wide enough for his (still) small career. «Am I going to work with bleach forever? I have no idea; who knows if I don’t find something new out and explore its technique to its full potential?».

 
 

JOURNAL PROUST

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Manuel Tainha

 
 
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