Kruella d'Enfer

Kruella d'Enfer
 

A fantástica história de Kruella D’Enfer começa em 1988, numa aldeia em Tondela, numa noite aparentemente chuvosa de Dia das Bruxas — talvez a concretização de um mito previsto ou de mil e uma lendas de cores, criaturas místicas e quimeras (ir)realizáveis. A aptidão para a ilustração começou cedo e deixou uma marca espessa no seu percurso de quase dez anos. Entre telas, murais, exposições e um sem número de suportes e dimensões, Kruella tem-se afirmado como uma artista visual plurivalente e destemida nas conquistas.

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The fantastic story of Kruella D’Enfer begins in 1988, in a village close to Tondela, on a seemingly rainy Halloween night — perhaps this was the embodiment of a foreseen myth or of a thousand legends of colours, mystical creatures and (im)possible chimeras. The ability for illustration appeared quite early and left a thick mark on her journey of almost ten years. Among canvases, murals, exhibitions and an endless number of mediums and dimensions, Kruella has been affirming herself as a versatile visual artist who’s fearless in her conquests.

 

 
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«A exposição no Village Underground [com os Halfstudio, em 2016] foi muito boa, mas completamente ao lado. Gostei muito do projecto, mas senti que precisava de encontrar o meu estilo; queria muito explorar isso e ser forte numa coisa, e não queria andar a trabalhar em mil e uma técnicas diferentes, caso contrário, as pessoas não reconheceriam nada. Toda a gente passa por isto no início, descobrir o que se gosta de fazer e qual o estilo e a linguagem. Era nessa fase de transição que estava nessa altura».

Como todas as obras de criação artística, Ângela — sim, há um nome próprio por detrás do alter-ego — começou por explorar muitas correntes e formas de trabalhar com as mãos. De imaginação fértil na ponta dos dedos, foi desenvolvendo as suas próprias técnicas com inspiração na natureza, plantas e animais, para sermos mais precisos, cujos elementos cruciais continuam a fazer parte dos trabalhos que faz hoje em dia, ainda que «cada vez mais digital, não tanto manual».

«The exhibition at Village Underground [with Halfstudio, in 2016] was pretty good, but it wasn’t really what I wanted to do. I enjoyed the project, but ultimately felt I needed to find my own style; I really wanted to explore that and be strong in one thing and didn’t want to work on a thousand different techniques, otherwise people wouldn’t recognise anything. Everyone goes through this in the early stages, to find out what one likes to do and what kind of style and language one wants to hold. I was at that transition stage back then».

Like every art creation, Ângela — yes, there’s a name behind the alter ego — started by exploring different currents and ways of working with her hands. Her fingertips oozing with imagination, she began developing her own techniques inspired by nature, plants and animals, to be exact, which crucial elements are still part of her body of work nowadays, even if «increasingly more digital and less handmade».

 
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Um dos pontos de viragem da sua curta, mas simbólica, carreira foi a exposição que apresentou em Lisboa, em 2017, algo que não fazia há praticamente seis anos, e todo o processo que a fez chegar até ao resultado final. «A minha exposição a solo, “Existence Without Form”, foi uma marca a ferro e fogo do meu estilo e do que queria fazer — não tanto a nível de exposições, mas de linguagem. Esta exposição teve um peso muito importante na minha vida. Estava na transição de ter uma relação com uma pessoa que fazia exactamente o mesmo que eu, que era um suporte para tudo e mais alguma coisa, para, de repente, estar sozinha. Isto foi significativo para a minha aprendizagem, o estar sozinha, porque conseguia resolver problemas, o que antes não acontecia, mas, ao mesmo tempo, achei que valia a pena juntar-me a um grupo de amigos cheios de talento, da música à fotografia e ao vídeo, e apoiar-me neles».

“Existence Without Form” começou a materializar-se, então, graças a essa dualidade. A solidão, por um lado, desconhecida e volátil, e, por outro, a nova rotina com amigos que partilham dos mesmos gostos e linhas de pensamento. «Na altura, as nossas conversas eram muito introspectivas e debruçavam-se sobre cultos, seitas, uma passagem de ano a roçar “Eyes Wide Shut” que tinha tido há uns anos, toda a gente mascarada. Achei este conceito engraçado e, já que estava a passar por uma fase supostamente dark, quis aproveitar-me disso e não ser sempre “positiva” e ter tudo sempre colorido; queria ser adulta e mostrar que conseguia pegar num tema obscuro e trabalhá-lo».

Depois desta investida num mundo mais sombrio e de uma mutação de linguagem, Kruella colocou as exposições em stand by e lançou-se para os murais, a epítome de quem começou também muito ligada à arte pública e urbana e que nunca se desfez dessa faceta virada para as grandes dimensões, tendo já deixado a sua assinatura em cidades tão díspares e distantes no mapa como Viseu e Paris (França), Abrantes e Banguecoque (Tailândia), Vila do Bispo e Biarritz (País Basco), Lisboa e Oviedo (Astúrias), entre muitas outras.

Os trabalhos comerciais que lhe batem à porta e lhe permitem colocar a sua linguagem em prática são bem-vindos, como as capas de livros para o Jornal Expresso, o mapa de Lisboa para a Victionary — «foi incrível, um dos meus trabalhos preferidos» — e, mais recentemente, o Colectivo Coruja e os seus desafios de arte urbana. 

One of the turning points on her short but symbolic career was the exhibition she presented in Lisbon, in 2017, something she hadn’t done in virtually six years, and the process that made her attain that final result. «My solo exhibition, “Existence Without Form”, was something of substantial evidence of my style and what I wanted to do — not as much in terms of exhibitions, but of language. This exhibition played a very important role in my life. I was going through having had a relationship with a person who worked on exactly the same thing as me, who was my rock for everything, to all of a sudden being alone. This was pretty meaningful for my learning process, being alone, because now I could solve problems, which didn’t happen before, but, at the same time, I figured it was worth it to get together with a talented group of friends, from music to photography and video, and look for support on them».

“Existence Without Form” started to gain shape thanks to that duality. Solitude, on one hand, unknown and volatile, and, on the other, the new routine with friends who shared the same things and lines of thought. «Back then, our conversations were quite introspective and leaned on cults and things like that, a New Year’s Eve I went to a couple of years before that was borderline “Eyes Wide Shut”, everybody wearing costumes. I thought this concept was kind of amusing, and since I was going through a supposedly dark time, I wanted to take advantage of that and not be always positive and paint everything up with bright colours; I wanted to be a grownup and show that I could take an obscure theme and work with it». 

After this venture into a more sombre world and a language mutation, Kruella put exhibitions on hold and took off onto murals, the epitome of someone who’s been through public and street art and never closed that door, having already left her signature in cities as different and distant as Viseu (Portugal) and Paris (France), Abrantes (Portugal) and Bangkok (Thailand), Vila do Bispo and Biarritz (Basque Country), Lisbon (Portugal) and Oviedo (Asturias), among many others.

More commercial and commissioned that come to her and allow her to put her language into practice are welcome, like the book covers she made for Jornal Expresso, the map of Lisbon she did for Victionary — «it was great, one of my favourite things to do» — and more recently the Colectivo Coruja and the street art challenges.

 
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«Acho que cada artista tem os seus objectivos e as suas ideias de ética de trabalho, e eu tenho as minhas. E estou muito confortável e muito feliz».

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«I think every artist has his/her goals and ideologies in work ethics, and I’ve got mine. And I’m very comfortable and very happy with that».

 

 

 

 

 
 

JOURNAL PROUST

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Kruella d’Enfer

 
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