Menina e Moça

Menina e Moça
 

Haverá sentença de vida mais bonita e harmoniosa do que um livro? Um sonho carismático que se desdobra em páginas e páginas e páginas de histórias de fins felizes ou trágicos, dúbios ou incompletos? Acreditamos que não, e sabemos bem que Cristina Ovídio tampouco. Menina e Moça é a menina literária dos seus olhos, uma livraria-bar envolta em boémia, noite e viajantes numa das ruas mais marcantes da noite lisboeta, que é cor-de-rosa, mas podia ser de uma outra cor pulsante que o seu significado se manteria puro. Falamos, claro está, da Rua Nova do Carvalho, no Cais do Sodré, e no destino final de quem procura repousar os olhos numa enchente de livros de variadíssimos autores e géneros, todos eles de alguma forma significativos para a nossa cultura.

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Is there a more beautiful and tuneful life sentence than a book? A charismatic dream that unfolds into pages and pages and pages of stories with happy or tragic endings, doubtful or incomplete? We believe there isn’t, and we know very well Cristina Ovídio believes that, too. Menina e Moça is the literary apple of her eyes, a bookstore & bar involved in bohemia, nightlife and travellers on one of the most prominent streets of Lisbon’s nightlife, which is pink, but it might as well have a whole other throbbing colour that its meaning would stay pure. We’re talking, of course, about Rua Nova do Carvalho, Cais do Sodré, and the final destination for those who’re looking to rest their eyes on a myriad of books written by assorted authors and of wide-ranging genres, all of them significant to our culture in one way or another.

 
 
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Menina e Moça nasceu, portanto, de uma ideia, um sonho tornado realidade como poucos poderão afirmar. Depois de 15 anos a trabalhar na área que mais ama como editora e professora de Português, Cristina abraçou este projecto como seguimento lógico do coração da vida que levou ao lado dos livros, que começou quando era ainda muito nova, já que os pais «eram leitores omnívoros», como a própria conta. «O meu pai tinha um escritório com milhares de livros, portanto, já cresci nesse ambiente — tenho ali, aliás, duas fotografias com o meu pai no seu escritório. Estes livros que aqui estão em cima são dele, apenas uma pequena fracção, já que o resto está no armazém de uma grande amiga. Acabei por seguir o curso de Letras, que acabou por me levar por esse caminho que, para dizer a verdade, não era assim tão evidente na altura. Tive uma professora que me destinou para Matemática, mas não fugi disto, simplesmente aconteceu naturalmente. Aliás, eu pensava que o meu mundo poderia ser mais o jornalismo de investigação. Mas as coisas foram tomando a sua forma e acabei por enveredar pelo caminho dos livros do ponto de vista profissional e não só dos livros de casa».

Ao entrarmos no Menina e Moça, sentimo-nos de imediato mergulhados nesta atmosfera especial que faz lembrar os cafés literários de outros séculos. «Fui contaminada pelo ambiente dos cafés literários em Paris, pois tenho uma irmã a viver lá e as minhas visitas eram sempre motivo para entrar nesses espaços muito acolhedores e misteriosos. Depois quis também associar esta realidade com um bar, porque, realisticamente, estando no meio editorial, sabia que era difícil em Portugal as livrarias singrarem por si só. Estamos a viver uma crise cultural e de valores e também em relação ao tempo de silêncio que dedicamos ao livro — isto levaria já a outro tipo de conversa — mas a verdade é que, hoje em dia, com tanta distracção e entretenimento, acabamos por perder esse tempo tão precioso. A leitura está a ser paulatinamente abandonada, mas eu espero que não signifique um destino infeliz para os livros que, para mim, serão sempre um objecto de arte que vai permanecer para sempre». 

A localização foi obra do acaso, mas queremos acreditar que o destino juntou o Menina e Moça ao Sol e Pesca por uma razão adequada, já que este último, um marco vincado da tão afamada rua cor-de-rosa, pertence ao seu marido, o arquitecto Henrique Vaz Pato, que também teve mão no projecto do espaço que foi desenhado de raiz «porque todos os espaços precisam de alma e de criar uma atmosfera própria, uma originalidade». 

Menina e Moça was thus born from an idea, a dream that became reality in a way that not many can attest to. After 15 years working in the field she loves the most as an editor and Portuguese language teacher, Cristina embraced this project as the logical segue for the heart of the life she spent beside books, which started when she was still a kid, as her parents were «omnivore readers», as she tells herself. «My father had a bureau with millions of books, so I grew up in that environment — there are actually two pictures with my father in his bureau. These books that are up here are his, just a small fraction, as the rest is stored in a big friend’s storage room. I ended up pursuing Humanities, which led me through that path, but it wasn’t as obvious as one would think back then. I had a teacher who steered me towards Math, but I didn’t run from it, it just naturally happened. In fact, I thought my world could be more about investigative journalism. But everything started to take its shape and I ended up going along the path of books from a professional point of view and not only the book life at home».

As we set foot inside Menina e Moça, we immediately feel deep inside this special atmosphere that reminds us of literary cafes from other centuries. «I was infected by the literary cafes in Paris, since I’ve got a sister living there and my visits were always a reason to go in those cosy, mysterious places. I also wanted to combine this reality with a bar, because realistically, being in the publishing world I knew that it was hard that bookstores could survive in Portugal just standing on their own. We’re living a cultural and values crisis but also with regard to the amount of silence we dedicate to a book — and this would get us into a whole other conversation — but the truth is that, today, with all the distraction and entertainment, we end up losing that precious time. Reading is gradually losing ground, yet I hope it doesn’t mean there’ll be an unfortunate ending for books, which for me will always be a work of art that will stand through time».

The location happened by chance, but we want to believe that fate joined together Menina e Moça and Sol e Pesca for a more appropriate reason, as the latter, a well-established landmark of the famous pink street, belongs to her husband, architect Henrique Vaz Pato, which also took part in the project that was designed from scratch «because every space needs soul and to create a suitable atmosphere, an originality».

 
 
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«Tudo tem a ver com a atmosfera que vivi em criança, onde vamos também guardar e recolher aquilo que nos interessa verdadeiramente, porque tem a ver com a nossa fundação, com a nossa estrutura»

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«It all comes down to the atmosphere I lived in when I was a kid, where we go to save and collect what’s truly valuable, as it’s about our foundations, our structure»

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A intenção era divulgar os autores portugueses para os estrangeiros, mas, infelizmente, a conclusão esperada é que os turistas acabam por «escolher mormente Fernando Pessoa e Saramago. São excelentes autores de uma dimensão gigantesca, mas gostaria que outros tivessem essa procura». As estantes que percorrem o café de uma ponta à outra, cada uma à sua maneira e com os livros que merecem, completam-se com objectos que Cristina vai coleccionando ou recebendo de amigos, alguns deles baptizados de “leitores”, pequenas figuras ao dependuro do tecto ou descontraidamente sentadas numa vitrina que personificam o puro acto da ler. A atenção vira-se irremediavelmente para o seu “céu” desenhado pelo João Fazenda, amigo e artista que muito admira, uma “capela sistina” desenhada só para esta Menina e Moça e que veio desofuscar o espaço que outrora se expunha lúgubre e sombrio. 

De resto, aqui apreciam-se os prazeres da vida, desde o vinho — «que é de Almeirim, onde o meu avô tinha uma adega geminada à casa e onde cresci a pisar as uvas nas vindimas. Tudo tem a ver com a atmosfera que vivi em criança, onde vamos também guardar e recolher aquilo que nos interessa verdadeiramente, porque tem a ver com a nossa fundação, com a nossa estrutura» — à tosta de abacate criada pelo filho, dos queijos e pão criteriosamente seleccionados aos cocktails imaginados pelo responsável de bar, Carlos Santos, que também pintou alguns dos quadros expostos no espaço. 

Uma coisa é certa: Raul Brandão, Ruy Belo, Miguel-Manso, Charles Dickens, Umberto Eco, Carlos Drummond de Andrade, Gabriel García Marquez e muitos, muitos outros, uns mais conhecidos, outros mais confinados a um submundo literário muito particular, todos eles têm lugar à mesa no Menina e Moça, para além dos autores e editores que aqui vêm para os dias de Rendez Vous, as tertúlias, os lançamentos, as exposições, o jazz e todos os outros eventos típicos de um café literário, vulgo, livraria-bar que convida ao encontro das pessoas à volta dos livros — sem dúvida, um espaço com sorte, mas «a sorte dá muito trabalho».

The intention was to show Portuguese authors to foreign visitors, but, unfortunately, the expected conclusion was that tourists end up «choosing mostly Fernando Pessoa and Saramago. They’re epic, excellent authors, but I’d like to see others in that spotlight, as well». The shelves running the café from one end to another, each one in its own way and the books each deserved, they are completed with objects Cristina collects or gets from friends, some of them named “readers”, tiny figures hanging from the ceiling or casually sitting behind show-windows that depict the pure act of reading. The attention is irretrievably pulled to its “sky” painted by João Fazenda, a friend and an artist she admires, her own “Sistine Chapel” designed just for this Menina e Moça, which came to clear out the space that once was gloomy and dark.

Moreover, all the pleasures in life are cherished here, from wine — «which is from Almeirim, where my grandfather had a winery next to his house and where I grew up stomping grapes. It all comes down to the atmosphere I lived in when I was a kid, where we go to save and collect what’s truly valuable, as it’s about our foundations, our structure» — to the avocado toast created by her son, from carefully selected to cheeses and bread to the cocktails imagined by the bar manager, Carlos Santos, who also painted a few of the frames exhibited at the café.

One thing’s for certain: Raul Brandão, Ruy Belo, Miguel-Manso, Charles Dickens, Umberto Eco, Carlos Drummond de Andrade, Gabriel García Marquez and many, many others, some more well-known, others more confined to a very particular literary underworld, they all have a place at the table at Menina e Moça, in addition to the authors and editors that come here for the Rendez Vous days, get-togethers, releases, exhibitions, jazz and all the other events that are typical of a literary café, or a bookstore & bar that invites people to gather around books — definitely a lucky place, but «luck’s a lot of work».

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